Álbum de figurinhas da Copa...


Ano de Copa do Mundo. Discussões sobre quem deve ser convocado. Jogadores que aparecem, literalmente, "no apagar das luzes" e provocam dor de cabeça no treinador da seleção. Analistas na televisão se perguntando quem é favorito ou pode surpreender e chegar a taça. Ansiedade quanto a lista dos brasileiros que irão defender a amarelinha, sempre bem cotada, mesmo quando seu elenco não é tão badalado. Propagandas na televisão e pessoas se organizando para ver os jogos em casa ou no trabalho. E, para completar, é claro, quase como uma tradição desde a copa de 1982 (pelo que eu me lembre), os álbuns de figurinhas com os craques (e os cabeças de bagre também) de cada seleção nacional classificada para o evento.

E o que a princípio parecia coisa de criança ou, no máximo, de adolescentes, tornou-se concorrida brincadeira também entre os adultos. Há homens e garotos envolvidos na busca pelos cromos que podem lhes ajudar a completar as páginas e páginas de seus álbuns. E realmente é uma deliciosa diversão. 

Me lembro bem de quando ainda garoto, na Copa de 1982 - aquela que fez tantos brasileiros chorarem de tristeza ao ver o time de mestre Telê Santana, com craques como Sócrates, Falcão e Zico ser desclassificada pela Itália de Paolo Rossi logo depois de ter despachado los hermanos argentinos, comandados por Diego Maradona, para casa - ter corrido atrás das figurinhas.

E levou bastante tempo para completar. Para ser honesto, nem me lembro se consegui preencher tudo. A brincadeira era bastante divertida e sadia. Comprávamos alguns pacotinhos com 4 ou 5 figurinhas (naquela época o álbum e os cromos eram vendidos por uma marca de chiclete e, na parte de trás apareciam as informações dos jogadores) e, depois de colar os exemplares que ainda não tínhamos, separávamos as repetidas para duas novas etapas: as trocas com os colegas e, quando ainda sobrassem algumas, para jogar bafinho. Tinha gente que era realmente muito boa nisso e, me lembro bem, "rapelava" todo mundo, ou seja, ganhava tudo mesmo.

Quando cruzávamos com um desses campeões do bafinho, e sabíamos quem eram, procurávamos evitar o confronto. Dizíamos que não tínhamos repetidas e fugíamos do pau. Eram comuns também os perdedores natos, as vítimas preferenciais. E íamos atrás deles. Normalmente estes eram os garotos que tinham mais dinheiro para gastar e muitas repetidas no bolso. Não se importavam tanto em perder (aparentemente, é claro!). E eram muito fracos no bafo. Nesta hora entrávamos com 4 ou 5 figurinhas e saíamos com 12 ou mais... Trocar e disputar figurinhas era uma gostosa diversão!

Hoje, leio nos jornais e vejo na TV e internet que as bancas não estão dando conta da demanda por mais e mais pacotinhos de figurinhas. Meu filho informa que já tem gente na escola com o álbum quase cheio e, olhem que a febre dos álbuns da Copa tem no máximo uns 10 dias...

O percurso para preencher as páginas, completando seleção após seleção, conseguindo tirar as premiadas e os estádios, as fotos com as equipes completas ou os escudos dos times, que era o que havia de melhor, não faz parte da brincadeira neste século XXI tão veloz e voraz em tudo o que oferece e propõe. A garotada quer mesmo é completar o álbum rapidamente, de preferência na frente dos colegas, como se estivessem participando de uma corrida, na qual ao primeiro lugar cabe o alto do pódio, como se a Copa do Mundo fosse conferida ao vencedor.

Como estamos falando de futebol, é sempre bom fazer uma analogia. Dá para imaginar a festa da Copa sem todos os dias e jogos do torneio? A alegria deste evento esportivo e de tantos outros está justamente em cada momento de disputa, tensão, torcida, tristezas e alegrias que nos são dadas quando acompanhamos a festa maior do futebol mundial. Quando acabam os jogos e o troféu é erguido pelo capitão de uma das equipes participantes (e sempre torcemos muito pelo Brasil), ficam as lembranças e o desejo de que tudo fosse um pouco mais devagar... Gostaríamos de ter aproveitado mais, cada momento, lance, jogo...

Com os álbuns de figurinhas, pelo que me lembro, o mais legal de tudo era o que acontecia durante o preenchimento das páginas, na busca pelas figurinhas, comprando sim e, principalmente, trocando ou jogando bafinho. Hoje vejo pais que correm as bancas de jornais e compram dezenas de pacotinhos. Saem com 30, 40, 50 ou mais reais de cromos. Querem que seus filhos sejam satisfeitos na sua necessidade imediata de completar o álbum na frente dos colegas. Talvez tenham se esquecido de como era quando eles mesmos colecionavam...

No mundo globalizado em que vivemos, a velocidade deixou de ser a tônica apenas no trabalho, nos compromissos profissionais e passou a nortear até mesmo a vida de nossas crianças e adolescentes. As brincadeiras perderam o sabor. O tempo virou o fator decisivo. Queremos tirar o bolo do forno antes dele estar assado. Deixamos para trás a época em que se criava espectativa quanto aos aniversários ou o Natal e os brinquedos que as crianças queriam ganhar. Vivemos em ritmo de fast-food, o importante é colocar algo dentro do estômago, mesmo que o sabor não seja tão agradável...

Do jeito que as coisas estão, muitos terão completado suas seleções e o álbum todo antes da Copa do Mundo começar. E, quando a bola rolar, provavelmente já terão esquecido em algum canto da casa tanto o álbum quanto aquele monte de repetidas que não conseguiram trocar. O pior, no entanto, é que o encanto da brincadeira terá sido perdido...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Eu não era bom no bafo não, mas trocar as figurinhas repetidas é uma atividade mto legal de interação. Estou colecionando o álbum esse ano, aliás coleciona desde a Copa de 1990.

    A internet tem facilitado a troca de figurinhas, até uma reportagem do uol mostrou a troca de figurinhas marcada por uma comunidade do orkut. E aqui na minha cidade, Guaratinguetá, estamos marcando de trocar figurinhas também pelo orkut!

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