Saudade
Palavra da língua portuguesa que inexiste em outros idiomas, conforme ouvi de alguns colegas professores, saudade caracteriza bem o sentimento que herdamos dos colonizadores lusos e que dá uma idéia bem clara do que sentiam quando atravessavam o mar oceano se deslocando para estas paragens quando por aqui existia apenas uma natureza exuberante, verde, fascinante povoada por índios de tribos diversas.
Palavra essa que foi igualmente adotada pelos negros cativos, escravos africanos, no seu banzo (expressão da saudade) que nos trazia o lamento, a solidão, a distância da mãe África, de suas tribos, de seus rituais, de seus amores, de suas famílias, de sua liberdade...
Palavra que passou a ser compreendida e utilizada até mesmo pelos índios que aqui viviam e que, com a chegada dos portugueses, descobriram o que é ausência, a perda, a dor de viver sem o chão onde por tanto tempo plantaram sua mandioca, seu milho, seus filhos e toda sua existência, deslocados que foram, pelas contingências e exploração, para o interior do país...
Saudade é a expressão que empregamos para falar daquilo que já não temos. Pode ser sobre alguém que perdemos: um familiar, um amor, um amigo. Também revela a dor ou a amargura que toca nossos corações quando nos distanciamos da terra natal, de onde nos originamos ou por onde estivemos durante tanto tempo. Há ainda casos de pessoas que padecem pela perda de alguma coisa, material mesmo, uma foto, uma blusa, um livro. A saudade vem, de mansinho, bate em nossos corações e nos leva a buscar o silêncio ou o conforto naqueles que amamos e que estão por perto.
Há ainda a saudade que é nostalgia e, nesse momento, é aquela que fala ao coração de muita gente. Nesta modalidade, se assim podemos dizer, queremos um tempo e um espaço que já não existem. Como o adulto que cresceu e viu os campos de peladas nas ruas sumirem, dando lugar a edifícios, fábricas e avenidas. Onde os moleques de agora irão jogar bola ou empinar suas pipas?
Na nostálgica saudade, lembramos de nossas casas num tempo em que a paz era mais presente, a velocidade não era premente, os homens e mulheres abriam suas portas para os parentes, para os amigos. De repente aparecia alguém. Batia na porta. E era uma festa só, cheia de abraços, beijos e carinhos. Sentavam-se todos na sala, enquanto alguém ia sorrateiramente para a cozinha.
De lá começava a vir um cheiro delicioso de café fresco, broas, pães, geléias... O papo rolava solto, as crianças saíam a brincar no quintal. De repente alguém alertava para a mesa farta, onde havia espaço para todos. A simplicidade reinava. Éramos muitos, adultos e crianças, mas as cadeiras não faltavam, muito menos os pãezinhos e aquelas canecas metálicas brancas onde o café com leite parecia mais saboroso.
Não eram só a mesa e o papo gostoso que deixavam todos felizes. A saudade que bate no coração revela que era a amizade, o laço sincero e profundo, o prazer de estarmos juntos que fazia tudo tão gostoso e digno, em toda a sua simplicidade, revelando cumplicidade.
Acho que a saudade, essa nostalgia, nos tempos de hoje, revela que não há computadores, TVs, automóveis ou qualquer tipo de recurso que substitua estes encontros, reuniões e festejos. As crianças, adolescentes e adultos de hoje padecem de alguns males, que nem vou nomear nestas linhas, pois penso, que na realidade, o que lhes falta são os outros, ou melhor dizendo, o que lhes faz doer o coração e a cabeça, é a saudade do que viveram ou do que nem ao menos tiveram chance de conhecer...
Por João Luís de Almeida Machado


Que palavras belíssimas! Palavras que dão significado real à saudade, sentimento que, como bem colocou o professor, sabemos bem o que significa.
ResponderExcluirObrigada por trazer a nós essa tão necessária reflexão, professor.
Erika Bueno.