Ser criança em tempos de tecnologia...

Concedi esta entrevista sobre Crianças e Tecnologia a alunos da PUC-RS e a destaco, também no Escolhendo a Pílula Vermelha, para que outras pessoas tenham acesso a este tão importante e pertinente tema colocado em discussão e já abordado por mim em outros artigos (cujos links apresento ao final da entrevista).


1- Quais as principais diferenças que podem ser percebidas no brincar de algumas décadas atrás e no “brincar tecnológico” dos dias de hoje?

JL – Essa recordação às vezes parece saudosismo aos olhos da atual geração, que não viveu dentro desta realidade, mas há 20, 30 ou 40 anos atrás as crianças brincavam em casa quando chovia ou quando algum impedimento de outra natureza impedia que elas saíssem para encontrar seus amigos (como alguma doença, por exemplo). Na maior parte do tempo estavam na vizinhança, correndo pelas ruas, brincando de pega-pega, esconde-esconde, cabra-cega, jogando pião, empinando pipa, batendo bafinho com figurinhas, brincando de casinha e bonecas ou jogando bola ou bola de gude. Mesmo quando estavam em casa queriam ter algum amigo por perto, para que o divertimento fosse maior. Sozinho ninguém queria ficar. Creio que esta talvez seja uma das maiores diferenças entre ser criança naquele tempo e hoje em dia. Substituíram-se as pessoas por recursos tecnológicos. Primeiro a TV, que veio inclusive a ser chamada de “babá eletrônica” e suplantou não apenas as brincadeiras e as amizades, aos poucos, mas também que ocupou espaço e tempo de leitura, de imaginação, de criatividade, de pintura, da massinha... Depois vieram outros recursos, principalmente, de forma mais recente, os computadores e a web. Multimidiáticos e fascinantes, estes recursos cativam as crianças desde cedo e as confinam ao espaço doméstico, fazendo com que as mesmas cresçam sem tanto contato e interação com outras crianças e com o próprio mundo lá fora.

2- A atual preferência das crianças por brinquedos eletrônicos tem alguma causa particular ou é apenas parte do gosto pela tecnologia que afeta todas as faixas etárias?

JL – É resultado de vários fatores. Há certamente, como mencionei, o fascínio pela tecnologia e suas possibilidades, em especial numa época como a de hoje, em que a evolução dos equipamentos é tão rápida e sua divulgação quase que imediata. As crianças e adolescentes assistem na TV ou vêem na internet novos modelos de celulares, computadores e outros recursos e logo se interessam em adquirir estes equipamentos achando que os que possuem estão ultrapassados, obsoletos. Neste sentido a indústria e o marketing, a publicidade são poderosos. O consumismo, por sua vez, não tem como única força motriz a indústria e seus interesses econômicos, desde os anos 1980, com a geração Yuppie nos Estados Unidos, que se consolidou além das fronteiras daquele país, influenciando o comportamento em tantas outras localidades, inclusive no Brasil, tornou não apenas aceitável este tipo de comportamento como, indo além, praticamente o sacramentou, o sacralizou. O errado e o estranho não é consumir em excesso, querer trocar de bens em pouco tempo, passou a ser o contrário disso, ou seja, a acomodação com nossos bens, ainda que em bom estado, por serem velhos e/ou desgastados. Queremos sempre mais e melhor. Pode-se argumentar que isso faz parte da natureza humana, mas até que ponto isso é verdadeiro se gerações e gerações anteriores a nós viveram de outra forma? Além disso, até quando o planeta agüenta a exploração que nele fazemos para garantir esse consumo desenfreado e irresponsável? Vi um documentário em que profissionais responsáveis pela divulgação de produtos de grandes empresas estrangeiras diziam trabalhar no sentido de tornar as crianças e adolescentes cada vez mais preparadas para ganhar a queda de braço com os pais na luta para obter os bens novos que desejam... Aonde vamos parar?

3- Como os brinquedos eletrônicos podem afetar o aprendizado e desenvolvimento intelectual das crianças?

JL – Creio que a pergunta pode ser refeita no sentido inverso, ou seja, até que ponto o aprendizado e o desenvolvimento intelectual das crianças podem prescindir de experiências em que os eletrônicos não estão envolvidos? As crianças precisam brincar ao ar livre, manipular massinhas, sentar nos tanques de areia, subir em gangorras e balanços, chutar bolas, compor desenhos e, especial destaque a isso, estar com outras crianças, brincando com elas, disputando espaço, interagindo. Eu e minha esposa, que também é educadora, optamos por educar nossos filhos, que hoje são adolescentes, até que entrassem no Ensino Fundamental, sem contar com computadores e videogames, usando brinquedos como jogos, massinha, lápis de colorir, quebra-cabeças, bolas e bonecas. Além disso, nos preocupamos muito em sair com eles, permitir que tivessem contato com amigos e primos, viajamos para que conhecessem outros locais e realidades, além de ler com freqüência para eles e estimular que conhecessem música, arte, cinema...Depois que entraram no fundamental os introduzimos aos recursos eletrônicos e permitimos videogames e computadores. Sempre que penso nisso tenho a certeza (assim como ela também) de que agimos da forma mais correta e adequada possível. Os eletrônicos conseguem atrair as crianças e jovens com facilidade e os desviam dos demais recursos, abreviando ou mesmo evitando contato com eles, criando-se desta forma uma lacuna que não será preenchida mais para frente... Costumo dizer que todos no futuro estarão incluídos ao universo virtual, digital e ao uso dos eletrônicos e que, quem fará a diferença serão aqueles que além disso, em suas vidas e formações, tiverem contato com os livros, a natureza, os filmes, muitas outras pessoas, lugares, alimentos, músicas...


4- Brincar, atualmente, é um ato muitas vezes solitário e isolado para as crianças. Como isso afeta a relação delas com outras pessoas?

JL – As crianças se tornam mais defensivas na relação com os demais. Aumenta também a possessividade em relação às coisas e as pessoas próximas. Passam a ter dificuldade para dividir, socializar e relacionar-se. Este contato reduzido pode acarretar até mesmo maior lentidão para o desenvolvimento cognitivo, ainda que algumas pessoas vejam nos recursos eletrônicos a possibilidade de expandir e superar o que seria conhecido através desses contatos. A solidão é outra conseqüência óbvia. As crianças ficam mais introvertidas. Pode acarretar também alguma agressividade no contato com outras crianças em casos mais extremos.

5- Como o desenvolvimento motor das crianças é afetado?

JL – Há algum tempo atrás foi lançada a plataforma Second Life, na qual temos avatares que nos representam no espaço virtual e, a comunicação destes seres virtuais era toda feita por digitação, o que redundava nos próprios avatares mexendo as mãos, em ação semelhante ao ato de digitar. Gosto de lembrar disso porque percebo a falta que faz as novas gerações coisas simples como subir em árvores, correr pelos parques em divertidas brincadeiras, esconder-se agachado atrás de algum banco, chutar ou arremessar uma bola, empinar uma pipa e tantas outras ações que estimulam o desenvolvimento físico, motor e até mesmo a coordenação fina (no caso de desenhar, pintar, manipular quebra-cabeças, jogo de varetas...). Há, portanto, prejuízos que ainda estão sendo estudados pelos especialistas, mesmo que mínimos, para o desenvolvimento motor das crianças. Conversando com um colega professor de educação física e treinador esportivo ele me dizia estar surpreso com a quantidade de meninos e meninas que não tem interesse em praticar esportes, jogar bola mesmo. Segundo me disse, a maioria que apenas jogar videogame e ficar no computador...

6- O comportamento delas, por meio do uso desses brinquedos, pode ser considerado mais agressivo?

JL – Há especialistas que acreditam que a TV, o computador e os videogames podem influenciar comportamentos agressivos, estimulando, por exemplo, o bullying. Temos visto um crescente número de casos de bullying acontecendo no Brasil e no mundo e, neste caso, tal tese parece ser correta. Atribuir tal comportamento agressivo somente aos games e a TV é, no entanto, simplificar demais a situação. Há outros fatores, como a própria ausência dos pais na formação destas crianças e jovens, que podem ter maior influência e que acabam sendo deixados de lado. Além disso, os exemplos sociais que repercutem na mídia e consolidam idéias relacionadas a violência, não apenas no aspecto físico, mas também no moral e ético, não podem ser deprezadas. Considero que estes fatores, além de alguns outros, conjuntamente motivam o aumento da agressividade e da violência a partir da infância e durante a adolescência.

7- Como os pais devem se comportar na escolha dos brinquedos das crianças?

JL – Creio que o primeiro passo é levar em conta que presentes, especialmente brinquedos, não substituem a presença e o afeto e que, neste sentido, não se deve ficar dando presentes a todo o momento. Reserve estes brinquedos que serão presenteados e oferecidos aos filhos para os momentos adequados, como o Natal ou aniversários. Outra questão importante diz respeito ao fato de que os brinquedos devem ser adequados a faixa etária das crianças. Vejo meninos e meninas de 4 ou 5 anos ganhando telefones celulares, por exemplo, um exagero por parte dos pais. Antecipam-se ou queimam-se etapas de maturação e desenvolvimento sócio-cognitivo da criança com ações como essa, que integram muito prematuramente as crianças ao universo adulto. Outro exemplo são os estojos de maquiagem ou as unhas pintadas para meninas de 6 ou 7 anos de idade. Brinquedos devem divertir e, se possível, de algum modo, estimular a imaginação e a inteligência das crianças, de acordo com suas faixas etárias, as recomendações dos fabricantes devem ser seguidas. Observar se o brinquedo é apropriado ao filho levando-se isso em consideração ajuda muito no desenvolvimento da criança. Quanto aos eletrônicos, continuo acreditando que o melhor é começar um pouco mais tarde, sem queimar etapas, depois que a criança chega ao ensino fundamental.

Links para artigos sobre o assunto:



Por João Luís de Almeida Machado

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