Gentileza gera gentileza
Como dizia o Profeta Gentileza, célebre andarilho e pregador que viveu no Rio de Janeiro entre as décadas de 1960 e 1990, cuja obra registrada em pontes daquela cidade está sendo restaurada e preservada por conta da ação pública: "Gentileza gera gentileza". A mencionada restauração foi tema de reportagens de jornais, revistas e televisão há poucos dias e esperamos possa recuperar, treze anos após a morte do popular profeta, não apenas aquilo que foi por ele apregoado com sua arte pintada embaixo de viadutos, na proximidade de ruas e avenidas, mas principalmente o espírito contido naquelas palavras.
As pessoas hoje se esbarram. Há aqueles que preferem evitar uns aos outros. Vejo, por vezes, alguns que escolhem virar o olhar ou atravessar a rua a ter que dirigir um simples cumprimento a alguém conhecido. Vizinhos já não se conhecem mais. Há muita gente escondida dentro de casa, evitando o contato com os outros, por medo, apreensão, fobias sociais ou mesmo por conta deste individualismo tão característico dos tempos em que vivemos.
Me recordo de ter produzido texto há alguns anos atrás em que conclamava as pessoas a serem mais amáveis umas com as outras. Tinha endereço e objetivo. Era uma forma de abrir os corações de pessoas com as quais trabalhava que, muitas vezes, nem ao menos nos dirigiam olhares quando as cumprimentávamos. Talvez para elas parecesse estranho a minha insistência, ao repetir um "bom dia" ou "boa tarde", esperando ouvir deles alguma resposta. Mas a educação familiar, a vivência de cidade do interior, onde as pessoas se conhecem e se importam em demonstrar alguma amabilidade e cortesia (para não falar educação mesmo!) sempre me fizeram acreditar que é muito importante a gentileza, o fino trato e a consideração por todos.
Me lembrei outro dia de uma reportagem na televisão que falava da opressão vivida nas ruas do país inteiro pelos garis, estes homens e mulheres simples, que todos os dias tornam a cidade um local limpo e digno para todos nós vivermos, trabalhando com dignidade em tarefa de real interesse para toda a coletividade. Eles diziam que se sentiam como seres invisíveis aos olhos dos passantes das ruas e calçadas nas quais desempenhavam sua função. Mesmo utilizando roupas que os identificam, com tons de cores diferenciadas e chamativas, era como se não estivessem ali, mesmo se levando em conta a importância do trabalho que realizam... Eram desconsiderados socialmente, desprezados individualmente, as pessoas nem ao menos lhes dirigiam um simples cumprimento...
E não é só o cumprimento. Há também o sorriso, indispensável indicador de bons modos e humor sempre para cima, que certamente não pode ser forçado (amarelo como dizem na minha terra) - é preferível não sorrir a demonstrar que tal atitude é apenas mecânica como fazem alguns. Há, igualmente, a mão estendida, para que a saudação fique mais completa. Parece que até isso as pessoas hoje evitam, com medo de serem infectadas por algum vírus ou doença mortal...
O que mais parece ser uma fatal enfermidade é o distanciamento, a frieza, a falta de cortesia e educação, a ausência de gentileza. Abra a porta do carro para que seus acompanhantes entrem primeiro. Permita que o banco do ônibus em que está sentado seja utilizado por um idoso. Auxilie um deficiente a atravessar a rua movimentada que você também está cruzando. Agradeça as outras pessoas quando lhe prestarem qualquer ajuda, mesmo que pequena. Deixe transparecer sua satisfação pelas palavras amigas que lhe foram dirigidas.
As pessoas andam, nos últimos tempos, sempre na defensiva, com a expressão cerrada, punhos fechados. Até seus corpos, de certo modo expressam essa tristeza. Permita-se a felicidade dos pequenos gestos que garantem para alguém, próximo ou distante, conhecido ou desconhecido, a satisfação que provém do respeito, da simpatia e da gentileza.
Que o exemplo e as palavras do Profeta Gentileza, este homem sábio e humilde que abdicou de seus bens para confortar e orientar as pessoas na direção da bondade e da simpatia iluminem o Rio de Janeiro e todo o Brasil. Devemos, mais que aprender, viver de modo verdadeiro e expontâneo seu princípio, tão simples, mas tão poderoso, que nos diz que "gentileza gera gentileza". Isso bem poderia virar uma campanha nacional, não poderia...
Por João Luís de Almeida Machado


A humanidade está ávida por gentileza, mas as pessoas perderam pelo caminho como expressá-la.Devemos sim fazer uma campanha. Gostei muito
ResponderExcluirSe eu tivesse que escolher. entre as pessoas que comigo se relacionaram em toda a minha vida, a mais gentil de todas, com certeza eu escolheria voce. Voce é personificação da GENTILEZA.
ResponderExcluirParabéns continue assim.
João Machado