Globalização e Tradições Regionais: Os casos de São José dos Campos e Cunha, no Vale do Paraíba
São José dos Campos - SP
São José dos Campos é uma metrópole que tem, hoje, aproximadamente 700 mil habitantes. Vias urbanas modernas e ágeis garantem, neste século XXI, que os moradores da cidade consigam se deslocar com facilidade de uma ponta a outra da cidade em questão de minutos (com exceção dos horários de pico, quando o fluxo de veículos aumenta muito e cria verdadeiros "gargalos" por onde há muitos carros tentando passar ao mesmo tempo).
A estrutura comercial da cidade, com o centro respondendo por um comércio popular de preços mais acessíveis sendo pagos por produtos de boa qualidade e origem, os shopping centers distribuídos por diferentes bairros e regiões trazendo mercadorias e serviços de padrão mais elevado e preço condizente com a comodidade ofertada e as lojas estabelecidas em diferentes áreas habitadas de forma a atender as necessidades mais prementes, é bem organizada e estruturada, atendendo de forma plena os joseenses e também os habitantes de cidades próximas, também valeparaibanas.
A realidade desta cidade hoje é a de uma prestadora de serviços e atendimento comercial que tem sua principal fonte de arrecadação tributária em grandes indústrias, nacionais ou estrangeiras, estabelecidas nos limites do município, como a Embraer, a General Motors ou a Johnson's, por exemplo. Seus produtos ganham o mundo diariamente, sendo comercializados não apenas a partir de suas empresas de grande porte, mas também a partir de empreendimentos de pequeno e médio porte que aumentam ainda mais as possibilidades de investimento, crescimento econômico, empregos, consumo...
Além disso, no que se refere a educação, São José dos Campos oferece hoje aos seus moradores uma rede municipal de ensino que se mostra aberta a inovação, com investimentos que a fazem crescer, incorporando tecnologias e metodologias de ensino diferenciada. É certo que ainda há problemas no setor, o que afeta não apenas este município, mas também a toda a rede nacional, o que não iremos discutir neste espaço. Além da estrutura educacional ofertada pela cidade, há as escolas estaduais e a rede privada de ensino - com instituições nascidas no próprio seio da cidade e que já estão se tornando referência nacional, como o Colégio Engenheiro Juarez Wanderley, bancado pela Embraer, ou ainda o Colégio Poliedro, que franqueou seus materiais e sistema de ensino para todo o Brasil.
A cidade ainda oferece cursos técnicos profissionalizantes, interessantes até mesmo por permitirem o surgimento de mão de obra especializada para as indústrias e serviços da região - como a tradicional Etep e mais recentemente a Fatec - e suas universidades, entre as quais, destaque para o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), uma das melhores e mais conceituadas instituições de formação em engenharia do país e a Univap (Universidade do Vale do Paraíba), que atua no município há mais de 40 anos. Se pensarmos um pouco além, há ainda o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), no campo da pesquisa, reconhecidamente uma das principais referências em levantamentos de dados em seu segmento, reconhecido no Brasil e no exterior.
Poderíamos também perceber e destacar os avanços na área cultural - fomentados, por exemplo, pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo. O município tem preocupações com a preservação de espaços públicos, prédios e edificações mais antigas, que acabaram se tornando locais de visitação para a população, como o Parque da Cidade, em terreno que abrigava a antiga Tecelagem Paraíba. A biblioteca municipal é atualizada, conta com acervo bastante grande e equipamentos que facilitam a pesquisa e o estudo. O município tem teatros como o municipal (e constrói um novo no Parque da Cidade) e o Teatro Colinas. Possui várias salas de cinema distribuídas em seus Shoppings, além do Cine Santana, mantido pela prefeitura.
Tudo isso para poder dizer que, São José dos Campos, neste século XXI, representa o mundo globalizado encravado em pleno Vale do Paraíba. Com ligações e acesso a São Paulo (menos de 100 km) e Rio de Janeiro (aproximadamente 300 km), a Serra da Mantiqueira e ao friozinho das montanhas de Campos do Jordão e região ou ainda, a menos de uma hora de viagem para o litoral norte e as belas praias de Caraguá, São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba. Ligada na modernidade, São José é hoje um dos retratos mais bem definidos do sucesso em tempos de globalização no Brasil.
Ao lado de São José, também na região do Vale do Paraíba, distante aproximadamente 130 km, pela Via Dutra e, ao chegar a Guaratinguetá entrando na Rodovia Paulo Virgílio, fica a bela e pacata cidade de Cunha. Sua principal vocação hoje é o turismo regional. Tem aproximadamente 25 mil habitantes. Suas ruas remontam as tradições tropeiras, com subidas e descidas que nos fazem caminhar por entre igrejas, praças, bairros tranquilos, pousadas, restaurantes, ateliês de artistas que trabalham com cerâmica, pintura, tecidos...
É possível provar em seus restaurantes as mais tradicionais iguarias da gastronomia valeparaibana original, como os hoje conhecidos "virados" (com tutu de feijão, arroz, carne de porco, linguiças, couves, torresmos e farofas) e depois saborear algum doce típico da região seguido de um gostoso café. A simpatia e o acolhimento dos habitantes da cidade são um diferencial que não é resultado da necessidade de vender, mas qualidade típica dos habitantes do município, sempre dispostos a fazer de tudo para que você realmente se sinta bemvindo e queira voltar.
Fachada da Igreja Matriz de
Nossa Senhora da Conceição (Cunha-SP).
As construções tem estilo que remonta ao colonial e, ao passearmos pela cidade, percebemos nossa visita como uma volta no tempo, para uma época em que as pessoas não tinham tanta pressa e se importavam muito mais com os outros, a despeito de seus interesses ou negócios mais imediatos. Aprender o trabalho dos artesão de cerâmica, também uma possibilidade para quem visita Cunha, dá a medida exata da tranquilidade e paz de espírito que reina por ali. Para criar moldando a argila é preciso entrar em sintonia com este passo mais lento que por ali percebemos, dando-se o tempo de sentir a matéria-prima sendo trabalhada por suas mãos, escorrendo por seus dedos, pedindo formatação e criatividade na elaboração.
Cunha também parece um passo rumo a uma outra época por ser a capital do fusca. Há muitos carros dessa marca nas ruas e garagens, o que dá mais um charme retrô para o município. É possível ouvir moda de viola, comer pipoca na praça, assistir a uma boa missa na igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição ou em igrejas do século XVIII. As belezas naturais como as trilhas, as montanhas e as cachoeiras são grande atrativo para quem quer viver em contato com a natureza. Há a Pedra da Macela, por exemplo, com bela vista para Parati e o Atlântico.
Cunha também é hoje uma cidade inserida no contexto da globalização, como todas as outras do Vale do Paraíba, mas diferentemente de São José dos Campos, vive um outro timing, não tão acelerado e ligado a produtividade, a voracidade que nos é exigida pelo mundo e seus negócios. Há, certamente, negócios e dinheiro naquilo que mantém a cidade, mas a forma como o município entrou neste século XXI dá mostras de que é possível manter as características regionais e a cultura local preservadas, a despeito dos ganhos e vantagens advindas do mundo globalizado.
Cunha também é hoje uma cidade inserida no contexto da globalização, como todas as outras do Vale do Paraíba, mas diferentemente de São José dos Campos, vive um outro timing, não tão acelerado e ligado a produtividade, a voracidade que nos é exigida pelo mundo e seus negócios. Há, certamente, negócios e dinheiro naquilo que mantém a cidade, mas a forma como o município entrou neste século XXI dá mostras de que é possível manter as características regionais e a cultura local preservadas, a despeito dos ganhos e vantagens advindas do mundo globalizado.
É possível e necessário conseguir fundir o global e o regional, como nos mencionados casos das cidades de São José dos Campos (que também possui seu lado mais bucólico e tranquilo, como podemos verificar no distrito de São Francisco Xavier, entre outras possibilidades) e o de Cunha (integrada ao mundo via web e buscando adaptar-se, ainda que preservando tradições, as necessidades e premências globais). O importante é não perder o que se constituiu ao longo de gerações, substituindo aquilo que é valor e tradição, herança deixada por nossos pais, avós, bisavós, tataravós e demais antepassados ao mesmo tempo que incorporamos os ganhos do presente.
Viver no Vale do Paraíba reserva estas possibilidades ao percebermos casos como os mencionados e toda a riqueza que há, ainda, em todas as outras cidades da região, como Caçapava, Taubaté, Paraibuna, Natividade da Serra, Bananal, Cruzeiro, Jacareí, Santa Branca, Tremembé...
Por João Luís de Almeida Machado


Eu adoro Cunha
ResponderExcluir