Vil Metal

O sonho de Marcos era ser rico. Pessoa de origens humildes, família de trabalhadores rurais que não tiveram condições de estudar, mas que entenderam desde cedo o valor da educação, aproveitou as oportunidades que teve para crescer. Foi para a escola, cumpriu ano após ano todas as tarefas ao mesmo tempo em que pegava no cabo da enxada e trabalhava em plantações de cana. Ajudava a família na labuta diária para que ninguém passasse fome ou dificuldade extrema, mas sua cabeça estava sempre focada num amanhã muito diferente, o mais próspero possível.

Como sonhar não custa nada, sabia que precisava trabalhar duro, estudar muito e, quem sabe, com recursos que seus pares não possuíam, chegar lá. Mas não era o sonho simples, da casa própria, bem equipada, com geladeira, fogão, máquina de lavar roupas e televisão. Ele queria mais. Era muito ambicioso. Via com os cantos dos olhos, e uma certa inveja a tomar-lhe o coração, a situação dos donos das terras onde colhia a cana ou ainda, um pouco adiante, os milionários que processavam o produto e o transformavam em combustível para tantos e tantos automóveis.

Constantemente se inebriava com a possibilidade de uma casa avarandada, sobrado, piscina, 3 ou 4 veículos novos na garagem, empregados a servir-lhe. E deu duro. Trabalhou muito mesmo. Foi acumulando recursos para que pudesse fazer uma faculdade. Ao mesmo tempo mostrava serviço junto aos patrões, o que lhe possibilitou subir na hierarquia, deixando de ser boia-fria, para se tornar capataz, depois supervisor, sendo transferido para uma sala simples, com ventilador, na sede da fazenda onde esta cana toda era plantada.

Mas queria mais. Seus olhos brilhavam ante o vil metal e era isso que lhe importava. Até o amor da juventude, a bela Maria Alice, também jovem simples, filha de boias-frias, teria que ser abandonada pelo pouco que poderia agregar para os seus sonhos futuros. Precisava de uma mulher mais vistosa, elegante e promissora. De preferência alguém que lhe permitisse subir na vida, literalmente.

Estava de olho em Carmem, filha de um dos sócios da empresa, que lhe lançava olhares furtivos e lhe dirigia palavras simpáticas, as vezes até convidativas. Foi se enamorando da moça. Chegando aos poucos. Mostrando os dentes. Tinha boa aparência, estava se vestindo bem, seus olhos claros eram sedutores e o sorriso aberto, praticamente irresistível, como já pudera comprovar. Engatou um namoro, que de paixão passageira aos olhares da família da moça, acabou se tornando arrebatador para ela. Ele, por sua vez, estava conseguindo subir.

Terminara a faculdade, feita à noite, com louvor, destacado entre os melhores da turma. Esta conquista educacional o fizera subir novamente de posto na empresa, mudar de sala, ter uma secretária, contar com um carro da empresa, modelo popular é verdade, mas a sua disposição para visitas a clientes, fornecedores e contatos em geral. Começou a viajar frequentemente. Ia a localidades próximas, eventualmente a alguns destinos fora do estado. Exterior ainda não, mas se conseguisse se casar com Carmem, provavelmente chegaria nesse estágio...

Suas andanças renderam para a empresa. Estava se tornando, a custa de muito trabalho, um dos principais representantes da companhia junto aos clientes. Era simpático, parecia sincero, suas origens humildes o faziam aos olhos dos demais um homem de respeito. Não sabiam e nem percebiam que seu único objetivo era o vil metal, ou seja, dinheiro e mais dinheiro. Nestas andanças surgiram as primeiras boladas por fora. Beneficiado por sua posição, recebia de fornecedores alguns mimos, que iam de caixas de vinho ou uísque a noitadas com belas mulheres, passando por roupas de marcas conhecidas, férias em locais charmosos e até mesmo quantias razoáveis do vil metal...

Com seu sucesso evidente (ou seria aparente?), o casamento com Carmem foi marcado. Os pais dela, de olho no genro promissor, que poderia continuar a frente dos negócios da família, já que não tinham outros filhos, viam com bons olhos a união do casal. Os familiares dele continuavam na lida no campo, tinham pouco ou nenhum auxílio do filho que conseguira se dar bem na vida. De vez em quando ele passava por lá, deixava com eles algum dinheiro, prometia uma casa melhor para os dias futuros, mas nem ao menos queria entrar em sua antiga residência, casa simples, de chão de terra batida...

Agora só lhe importavam os ambientes luxuosos, como os hotéis onde se hospedava ou as casas da "nobreza" que o estava acolhendo. Tinha um bom apartamento, em bairro de classe média ascendente, que estava sendo pago mensalmente, mas que mostrava aquém daquilo que precisava ter. Por isso mesmo, estufou o peito e resolveu mostrar que era grande. Foi a uma construtora e, utilizando-se de algumas propinas recebidas, deu entrada num belo imóvel, em condomínio fechado, financiando o pagamento restante em 15 anos. Agora sim, pensou, estou chegando no ponto que desejava.

Casou-se com a moça rica, de família importante. Fazia parte da sociedade. Parecia feliz. Mas sentia saudades do amor verdadeiro. Carmem era mimada por sua família, gostava de comprar e comprar, não trabalhava e o pior, tinha temperamento forte e uma leve tendência (familiar, herdada do pai) a engordar... Enquanto isso, Maria Alice ali por perto, cada vez mais linda, era uma tentação para o novo rico, herdeiro dos bens dessa família poderosa. Para não complicar sua situação, Marcos logo encomendou um filho com Carmem, ocupando-a e fazendo com que toda a família dela o acolhesse ainda mais. Na surdina, aproveitando este olhar mais voltado para a esposa e o futuro filho, começou a se reencontrar com seu antigo amor...

Não tinha ainda ganho o presente divino do filho que estava para chegar no seio familiar quando Maria Alice lhe falou que também estava grávida. Desesperado e preocupado com o escândalo, pediu a ela que abortasse ou então que o esquecesse, pois negaria qualquer envolvimento com ela.

Para piorar a situação, surgiram boatos na empresa de que estava recebendo dinheiro por fora para beneficiar alguns fornecedores e clientes. Havia até rumores de que fotos na internet poderiam denunciar sua participação em festinhas com muitas mulheres e uísque. Não bastasse isso, as fontes de onde tirava dinheiro suplementar começaram a secar. Preocupados com possíveis perdas financeiras nos contratos com a empresa, os amigos que lhe pagavam algum dinheiro por fora retiraram os benefícios...

Suas altas contas, que somavam os custos da casa e do financiamento, além do condomínio, tinham crescido ainda mais com as compras de Carmem, os gastos com o bebê, os dois belos carros na garagem, o título e as mensalidades do fino clube ao qual se integrara e onde jogava golfe com outros executivos, as despesas de viagens de férias (não mais bancadas por seus amigos) e tantas outros gastos...

Sem saber o que fazer, e não podendo recorrer a família de Carmem, por orgulho e vergonha ao mesmo tempo, começou a contrair dívidas em bancos e também junto a agiotas. Apostava em corridas de cavalo, dava uma escapada rumo a cassinos clandestinos e não deixava de jogar na loto e sena toda semana. Aumentou também a dosagem de álcool consumido. Preferia os destilados, o efeito era mais rápido e o fazia libertar-se de todas as evidentes dores de cabeça acumuladas em virtude do vil metal...

Noite dessas, depois de jogatina em que perdeu um pouco mais daquilo que já não tinha em mãos, voltou para casa e descobriu que Carmem e seu filho haviam partido. Já não tinha Maria Alice, que não abortou e acabou se casando com outro pretendente, homem honesto e íntegro que a acolheu juntamente com o filho bastardo de Marcos, formando uma verdadeira família. A justiça já estava lhe enviando cartas cobrando as dívidas e até a reintegração pela construtora do imóvel onde morava. Até os carros estava prestes a perder...

Só faltava perder o emprego de vez. E foi o que aconteceu, logo no dia seguinte, quando o telefone tocou e seu ex-sogro lhe informou que não deveria mais comparecer ao trabalho. As fotos das noitadas chegaram ao e-mail de seus chefes, Carmem estava na casa dos pais totalmente desolada, fornecedores e clientes o acusavam de cobrar propina (e tiravam fora o corpo de qualquer responsabilidade quanto ao fato), suas dívidas acumuladas já eram de conhecimento geral, assim como as bebedeiras e as jogatinas...

Devorado pela sedutora imagem do vil metal, Marcos sucumbia e, cambaleante, caminhava para o quarto da mansão que estava perdendo... Ia colocar em uso a derradeira peça dessa trama macabra que se tornara sua vida em função do sonho do vil metal... Comprara a poucos dias, no cartão de crédito quase estourado, um revólver e algumas balas... Dissera a mulher que era para a proteção da família... Mas já sabia bem aonde em breve teria que alojar uma das balas...

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

  1. Realmente a busca incansável pelos bens materiais tornou-se um problema na sociedade atual,os limites entre o que realmente precisamos e o que só queremos para ostentar é uma linha muito tênue,estamos mais preocupados em ter e parecer,totalmente vazios,e tudo que desejamos para buscar a suposta realização parece que depende diretamente do "vil metal".
    Com esse pensamento não medimos esforços para consegui-lo,trabalhamos em vários empregos,fazemos horas-extras em demasia,sacrificamos amigos e família pela falsa sensação de estarmos ganhando um pouco mais de dinheiro.
    Todo esse esforço ainda que pareça muito é normal, considerando os padrões de trabalho atual.O problema é que muitos querem o vil metal para ontem e procuram caminho mais fácil para consegui-lo,é onde a situação tende a piorar pois, as vezes precisamos passar por cima da moral e prejudicar de maneira direta ou indireta os que nos rodeiam.O que temos realmente que fazer é colocar na balança o que estamos ganhando e o que estamos perdendo pois o tempo é implacável se deixarmos o que tem valor para conquistar depois o depois pode ser muito tarde.

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  2. COMO DIRIA AQUELA MUSIQUINHA CHATA,MAS COM UM FUNDO DE VERDADE, "ANALISANDO ESSA CADEIA HEREDITÁRIA,QUERO ME LIVRAR DESSA SITUAÇÃO PRECÁRIA. ONDE O POBRE CADA VEZ FICA MAIS POBRE E O RICO,CADA VEZ FICA MAIS RICO".
    REFERE-SE A FORMA ESCRAVA QUE O MAU USO DO DINHEIRO NOS FAZ,ONDE VISAMOS SEMPRE MAIS,DEIXANDO DE LADO COISAS TÃO SIMPLES COMO AFETO,SAÚDE E PAZ ESPIRITUAL.
    pORTANTO ACREDITO QUE SE CONTINUARMOS NESSE MESMO RUMO,O NOSSO FIM COMO SERES HUMANOS RACIONAIS ESTARÁ A BEIRA DO FIM.
    Tatiane de Fátima Brandão/4BNA
    Administração/Faculdade Bilac

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  3. Quem nunca teve uma vontade de ter algo para impressionar aquela pessoa ou até pra fazer inveja para aquela outra...a sociedade é consumista e crescemos vendo e vivendo isso,as pessoas querem parecer oque não são e passar a idéia de que o que vale é ter e não ser,eu ainda prefiro acreditar ou me enganar de que o mundo voltará ao tempo onde o tempo não era apenas pra ganharmos dinheiro e sim para vivermos,essa é a idéia de alguém que também se deixou corromper por todo esse consumismo e essa busca pelo "vil metal".

    Eric Morino 4BNA

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  4. O mundo em que vivemos esta tornando cada vez mais consumista e individualista, muitas vezes compramos sem necessidades e acabamos com dívidas e comprometendo o orçamento e quando mais ganhamos mais gastamos, o que acaba muitas vezes se tornando um vício pelo consumo.Devemos analisar e pensar o que realmente tem valor e necessidade antes de comprar qualquer produto e evitar divídas desnecessárias.
    Rubens Aguiar de Sousa Faculdade Bilac 4BNA

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