Ética no Esporte: O importante é competir ou ganhar?
A corrida começou como deveria: Disputa logo na largada colocou na ponta o piloto que estava em 3º lugar no grid, em ultrapassagem que demonstrou habilidade e sorte. O carro respondia bem na pista e os concorrentes, apesar de próximos, não conseguiam ultrapassá-lo. As trocas de pneus alteraram momentaneamente o panorama da corrida, como era de se esperar, mas quando todos completaram o pit stop, o piloto que saltara para a ponta da corrida voltou ao primeiro lugar.
Passado um ano de acidente que quase o vitimara de forma fatal, uma vitória seria a celebração da vida, da competitividade, da competência técnica e do esporte. Tudo ia bem, até que na 48ª volta veio a ordem dos boxes, de sua própria equipe, "pedindo" que ele desse passagem para o segundo colocado, colega de equipe, melhor colocado no campeonato, que estaria mais rápido e seria beneficiado na disputa de pilotos.
O que seria uma vitória da equipe, com dobradinha no pódio, aconteceu de fato, com a inversão das posições, mas... Quem merecia e batalhou com mais disposição e qualidade até aquele momento foi obrigado a "entregar" o jogo, permitir a vitória alheia, ceder de bandeja o lugar mais alto do pódio para outro piloto... Pode-se dizer que é jogo de equipe, que o outro faria o mesmo se fossem invertidos os papéis, que os pontos a mais conquistados pelo vencedor podem fazer diferença no cômputo final da competição dos pilotos, que a equipe paga os salários (milionários) de ambos os pilotos e tem o direito de exigir isso...
Há muitas e muitas justificativas para tal fato, mas que a ética no esporte é cada vez mais ferida com ações como a descrita, ocorrida no GP da Alemanha de 2010, envolvendo os pilotos da mais tradicional escuderia da Fórmula 1 (a mais importante categoria do automobilismo mundial), isso é fato.
Aos olhos dos milhões de espectadores que acompanham as corridas no mundo inteiro, a credibilidade da competição fica ferida, desacreditada. As pessoas que gostam do esporte entendem que em qualquer modalidade a vitória, o empate ou a derrota devem ser definidos dentro de uma disputa justa, limpa, irretocável, sem intromissões alheias, sem que interesses de terceiros (ainda que sejam as escuderias, equipes ou times envolvidos) sejam os motivadores do ocorrido.
A competição deve estar acima dos milhões de dólares que movimentam as modalidades. Se o doping é abominável em competições de atletismo ou natação, se juízes que recebem propina para ajudar uma equipe a vencer a outra no futebol constituem ato igualmente impróprio e imoral, a intromissão das escuderias de Fórmula 1 (ou de qualquer outra categoria do automobilismo mundial) é, também, uma ação indevida, desqualificada, anti-ética e totalmente imprópria para o esporte.
A natureza do esporte tem como base primordial a competição. A cooperação dentro de uma mesma equipe deve acontecer, mas os limites desta ação de trabalho e auxílio terminam quando começam as disputas, os jogos, as corridas. Dentro das arenas esportivas, ainda que colegas de um mesmo time esportivo, cabe a cada atleta procurar a vitória, sobre os demais competidores, sejam eles de sua própria equipe ou não.
O célebre ensinamento do Barão de Coubertin, responsável pelo surgimento das Olimpíadas Modernas, na virada do século XIX para o XX, em que dizia que "O importante é competir" tem sido substituído por "O importante é vencer", ainda mais neste século XXI, no qual há milhões de motivos (a serem depositados em contas bancárias) para que as vitórias aconteçam. Não importa o que as pessoas pensem, a Ferrari abusou de seu poder de "empregadora" dos dois pilotos; Fernando Alonso, como bicampeão mundial da categoria, não deveria se prestar a tal papel, de aceitar esta barganha, assumindo a primeira posição na corrida sem que a tivesse conseguido por competência, numa disputa leal com seu companheiro de equipe.
Felipe Massa, que aos olhos de muitos pode ser visto como vítima desta farsa que se estabeleceu na Fórmula 1, situação que infelizmente já aconteceu em outros momentos, acatou as ordens e deixou Alonso passar. E se tivesse resolvido seguir adiante, mantendo a posição conquistada na pista, sofreria sanções da equipe? Seria repreendido pelos diretores? Teria multas aplicadas e descontos em seu salário? Mas sua atitude seria considerada de qual forma pela opinião pública? Prova de força, de coragem e de competitividade? Ou como insubordinação, motim e irresponsabilidade perante a equipe?
A ética no esporte prevê a disputa limpa, sem intromissões que prejudiquem o desenrolar da competição. Em 2008 a Renault, seu diretor Flávio Briatore e o piloto Nelsinho Piquet foram condenados pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) por um acidente com o piloto brasileiro (leia mais sobre o incidente no artigo O Caso Renault). Acidente forjado durante prova do campeonato mundial de Fórmula 1 daquele ano criado para beneficiar o colega de equipe de Piquet, que estava na disputa pelo primeiro lugar na prova e no campeonato de pilotos, as ações deste GP da Alemanha de 2010 são igualmente condenáveis pois revelam-se anti-éticas como as daquela situação. Ironias a parte, o beneficiário do acidente de Piquet foi também Fernando Alonso...
É claro que em 2008, no caso Piquet há agravantes, como a simulação previamente planejada de um acidente com o piloto brasileiro. Mas agora, em 2010, com regulamento claro que impede qualquer equipe de pedir ou "orientar" seus pilotos a fazer o tal jogo de equipe, a atitude foi igualmente premeditada e pensada nos boxes da Ferrari e fere a dignidade dos pilotos, da equipe, da categoria e do esporte. Situações como esta levam os fãs do esporte, a duvidar da credibilidade do que estamos vendo e, até mesmo, a abandonar a Fórmula 1...
Obs. Por mais que a Ferrari tenha sido multada pela FIA e que venha a sofrer sanções posteriores, o estrago está feito para todos. Para o bem do esporte a sanção mais apropriada em casos como este seria a desclassificação de Alonso e Massa e a perda de pontos por parte da Ferrari no Campeonato Mundial de Construtores!
Por João Luís de Almeida Machado


Desde criança, fui educado a competir... e vencer, pra mim, sempre foi a conseqüência de esforço empenhado em determinada disputa.
ResponderExcluirO que vimos no fim de semana foi o descrédito da competição esportiva mais milionária do cenário esportivo. Arrisco dizer bilionária.
Nosso país, vive um momento pré-Copa 2014 e pré-olimpíadas 2016, onde temos que dar exemplo para que no futuro, tenhamos um geração exemplo, onde o esporte aliado a educação faça com que aconteça um upgrade em nossa sociedade.
Não podemos nunca deixar que este tipo de acontecimento seja exemplo, pois corremos o risco de que a magia do esporte entre em descrédito.
Meu recado aos amigos é que a Ética deve prevalecer sempre e em qualquer situação, seja no esporte ou não. E sinceramente, o Felipe Massa que me desculpe, mas a Ferrari (grandíssima escuderia) deve ser punida pelo mal exemplo que deu este fim de semana.
Boa semana a todos! abraços!
Evandro Ariki
Condeno todos aqueles que infrigem as regras para alcançar seus objetivos, tanto no esporte como na política. Os péssimos exemplos que o Presidente da República vem dando a nação através de seus pronunciamentos, quando, sabendo que está infringindo a lei, faz declarações que não poderia fazer em favor da sua candidata do bolso do colete, Dilma Roussef. É uma desobediência civil que ele não poderia cometer, ele que jurou na sua posse cumprir o ordenamento jurídico deste país.
ResponderExcluirJoão Machado - 27/07/2010