O "X" da questão (nas eleições)
Não mais votamos anotando "X" em cédulas de papel, é verdade. As urnas eletrônicas estão presentes em nosso cotidiano eleitoral desde a última década. O Brasil já é exemplo de votação organizada, com a utilização inteligente dos recursos tecnológicos há algum tempo. Se no campo da realização dos pleitos eleitorais estamos dando lições para o mundo todo, cabem questionamentos quanto ao teor de nossas opções quando digitamos os números dos candidatos que escolhemos...
E não falo aqui somente das escolhas individuais, mas daquelas que expressam a vontade da maioria da população, das que definem quem serão os próximos governantes. Claro que cada escolha individual orienta e define, no cômputo final, os vencedores, nesse interim, portanto, esta breve reflexão traz divagações sobre como votamos hoje e de que forma isso interfere em nosso futuro e também no das gerações vindouras.
Há um termo derivado da economia que cabe bem nesse momento para entendermos o poder e a necessidade de uma participação mais consciente nos pleitos eleitorais. Trata-se da expressão "Tirania Intergeracional", utilizada para expressar o descompromisso dos homens de hoje em relação aos que ainda são crianças ou que estão por nascer... Demonstra o imediatismo e o compromisso único e exclusivo com interesses ligados ao agora e a ambições e ganância de alguns indivíduos e, principalmente, as corporações ou instituições que representam.
Aplicada a política e as eleições poderia ser compreendida como o voto que damos a candidatos que querem usufruir de mandatos apenas para atender suas próprias demandas e interesses. Ou ainda a partidos e seus representantes que ocupam posições no executivo ou no legislativo para que, em troca de dinheiro e/ou outros benefícios materiais, "auxiliem" empresas a conseguir vantajosos contratos com o governo federal, estados e municípios.
Também poderia ser entendida como a situação em que o eleitor, igualmente responsável pelos rumos daquilo que acontece com a nação, a pátria amada Brasil, escolhe candidatos que lhe prometem benesses materiais imediatas (jogos de camisa para o time do bairro, dentaduras, calçados, transporte gratuito, material escolar, cesta básica, material de construção, remédios, atendimento médico...) ou ainda realizações a médio e longo prazo para sua comunidade (construção de escolas, postos de saúde, melhoria das estradas, novos meios de transporte coletivo, empregos...) sem que estas propostas estejam documentadas em planos de governo, registradas em cartório e, principalmente, sem saber se é possível realizar tais ações (verificando se há verbas para tais serviços e, mesmo se as atribuições do cargo ao qual compete o candidato lhe darão autoridade para realmente levar adiante tais obras e realizações).
Em ambos os casos o que é mais imediato aflora, ou seja, pouco ou nada se pensa em relação as gerações de brasileiros que ainda estão crescendo ou que irão nascer nos próximos anos... E é preciso olhar além do "próprio umbigo", como nos ensina a sabedoria popular, quando pensamos politicamente. Isso vale para os políticos e para os eleitores. E vale lembrar também que a responsabilidade do eleitor não termina com o voto. Continua depois com a fiscalização, a cobrança, a denúncia de atos ilícitos, a entrada na justiça em caso de danos e erros graves cometidos pelos governantes... É preciso transparência quanto aos atos públicos, consultas a população periódicas por parte dos representantes do povo, participação em sessões no legislativo, ficar de olho no executivo e demandar ações de interesse popular juntamente a prefeitos, governadores e até mesmo ao presidente.
Precisamos, para tanto, no sentido de que o "X" da questão seja colocado no nome dos melhores candidatos, entender o sistema político como um todo... O principal enfoque é sempre em relação aos cargos do executivo. Dá-se mais importância as disputas para os cargos de presidente, governadores e prefeitos. É claro que tais posições são estratégicas. São os gestores das políticas públicas. Aqueles que irão direcionar as ações, contratar funcionários para as posições estratégicas de governo (como ministros de estado ou secretários estaduais e municipais) e orientar o uso das verbas disponíveis, coletadas a partir de nossos impostos (que, diga-se de passagem, são bastante altos, estando entre os maiores do mundo!).
O executivo é deveras importante, mas depende e funciona (ou deveria) em ação conjunta e coordenada com o legislativo, as casas onde se discutem as leis, se aprovam orçamentos, discutem-se projetos relativos a todas as áreas sociais, econômicas, culturais e, mesmo, políticas. O presidente, os governadores e os prefeitos dependem de senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores para a aprovação de suas moções, programas de governo, liberação de verbas... E tudo infere um grandioso jogo político, no qual se defendem interesses legítimos (da população, dos estados) e muitas vezes também ilegítimos (pessoais, corporativos, partidários).
Tudo isso tem que ser visto, entendido, discutido, trabalhado socialmente. As pessoas mais esclarecidas tem o dever cívico, a responsabilidade enquanto cidadãos, de levar adiante informações que permitam uma maior reflexão dos brasileiros quanto ao valor de seu voto, da sua participação nos pleitos eleitorais e, principalmente, da necessidade de continuar a atuar politicamente mesmo depois da posse dos eleitos! Só assim poderemos assinalar o "X" corretamente ao escolhermos nossos candidatos, ou melhor, ao digitarmos seus números na urna eletrônica!
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras


Acho que tudo o que você escreveu é de uma verdade pura e insofismável, apesar do meu desânimo e descrédito com o atual estágio político de nosso país. Esta campanha política que apresentam no horário gratuito não expõe absolutamente nada que diga respeito a intenção dos candidatos apresentados, eles apresentam apenas os candidatos como se fossem algum objeto de consumo. "Vote em fulano de tal porque ela representa a continuidade do atual governo" como se a atuação do governo em questão fosse a melhor do mundo.É claro que seria muita pretensão de minha parte querer que eles demonstrassem as suas verdadeiras intenções em assumir o governo, mas eu gostaria que ao menos eles dissessem como pretendem dar condição de vida mais dignas aos habitantes deste pais. Não, eles preferem continuar sendo oferecidos como se oferecem produtos de beleza, guloseimas, ou outra mercadoria qualquer. É uma lástima.A esperança é que um dia o nosso povo tenha uma educação mais aprimorada que permita que ela saiba discernir entre um candidato competente e um "poste".
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