O dia em que me percebi dinossauro... (Ou O Moderno Rip Van Winkle)


Rip Van Winkle... Você conhece esse nome? Não? Pois é, trata-se do personagem principal da célebre história em que ele dorme por cem anos e, quando acorda, ao olhar ao redor, nada conhece, ninguém encontra e se sente certamente perdido como nunca. Você já imaginou isso? Adormecer por tanto tempo e, ao despertar, ao abrir os olhos, ver como o mundo modificou-se?

E se isso realmente acontecesse, fosse possível? E se isso estivesse acontecendo nesse exato momento e ocorresse com você? E se para isso tomar forma nem ao menos fosse preciso que você adormecesse, mas que estivesse de olhos bem abertos (aparentemente, é claro) mas sem a real percepção de que tudo está mudando tão rápido...

Pior do que simplesmente imaginar é dar-se conta de que tais coisas acontecem mesmo, de forma muito mais frequente do que pensamos e que, nesse exato momento você pode estar passando por isso...

Pois foi assim que, de repente, me dei conta de que estava me tornando um dinossauro, um ser em extinção, uma espécie de Rip Van Winkle moderno. Como acordei? Vou lhe contar nas linhas a seguir...

Estava trabalhando tranquilamente, a dar minhas aulas quando ao me referir a algumas músicas dos anos 1960 e 1970, de personalidades que fizeram muito sucesso então e que ainda continuam sendo bastante apreciadas e reconhecidas, percebi que alguns alunos fizeram cara de espanto, outros de troça, esboçando risos e perplexidade ao mesmo tempo. Parecia que o que tinham acabado de ouvir de minha boca era algo tão distante, imemorial, pré-histórico mesmo, que só poderia ter vindo de alguém que acabou de chegar ao mundo numa máquina do tempo!

Continuei então, a preleção que havia preparado e para a qual utilizara trechos de música, projetados a partir de um videoclip, achando que no final das contas a aula era bastante inovadora. As letras de tais canções serviam para ilustrar a ideia dos jovens engajados, parcitipativos, críticos e altivos que naquelas décadas se levantaram contra a opressão dos sistemas dominantes (capitalismo e socialismo).

Disse-lhes que as pessoas daquela época manifestavam abertamente suas opiniões, indo as ruas, empunhando cartazes e faixas, levando paulada da polícia a serviço dos órgãos de repressão... E, de repente, mais risos... Para eles, conforme me disseram, alguns dos termos que estava utilizando eram diferentes, exóticos, parecendo-lhes vocábulos e terminologias extraídos de livros antigos (e olhe novamente estas estranhas palavras brotando de minha mente).

Comecei a perceber que, além das ideias e termos empregados, a própria postura e o jeito de me vestir estavam contrastando com o público ali presente. Os modos e maneirismos, a forma como me dirijo a eles e as demais pessoas, as referências culturais (como as músicas e filmes que utilizo e aprecio), de súbito, tudo parecia antigo, de outro tempo...

Saí da aula, entrei no ônibus e, ao meu lado se sentou um rapaz. Tinha fones nos ouvidos e, ao mesmo tempo dedilhava seu celular, navegando pela internet. Uma velha senhora acompanhada de uma menininha se postou ao nosso lado, de pé. Levantei e dei a ela meu assento. Imaginei que o moço ao meu lado ofereceria o seu lugar para a garotinha que acompanhava a avó. Mera ilusão. Seus olhos contemplavam a pequena tela enquanto os dedos, ágeis, digitavam mensagens que iriam parar sabe-se lá onde... Para ele, creio, tanto a idosa senhora e a criança a lhe acompanhar quanto eu não éramos reais, não estávamos por ali, talvez até o ônibus, o percurso e tudo mais lhe parecesse apenas ilusão... A gentileza que havia praticado, por modos e educação aprendidos em casa, era igualmente algo totalmente fora de uso...

Como estava na hora do almoço e não teria tempo de ir para casa, com pendências a resolver na rua, parei num pequeno e charmoso restaurante que conhecia no centro da cidade. Fazia algum tempo que não ia lá. Comer na rua não era algo regular em minha vida. As refeições constituíam, em casa, um momento no qual podíamos nos ver, conversar, saber do que estava a acontecer uns com os outros no meio daquela correria aparentemente sem fim que nossas vidas haviam se tornado nesse 3° milênio.

Entrei no estabelecimento e só então me dei conta... No lugar dos cardápios e das mesas com toalhas xadrez, as padronizadas banquetas e balcões onde as pessoas se servem por conta própria, de modo bastante ágil, sistema self-service, atendimento impessoal. Coma e corra. Não gaste muito tempo em sua refeição. Abra espaço para outras pessoas também se alimentarem em 10 ou 15 minutos. A jovem ao meu lado comia tão depressa que me senti incomodado. Ela devorou um filé de frango com arroz e creme de milho, mais salada e refrigerante em apenas 7 minutos! E se não bastasse isso, durante todo o tempo alternava seu olhar entre o relógio, a TV ligada diante do balcão e mostrava-se preocupada com o celular colocado ao lado de seu prato. Estava evidentemente com muita pressa.

Se ela parecia atrasada para algum compromisso, o mesmo ocorria com as demais pessoas que estavam ao meu redor. Um senhor literalmente engoliu um sanduíche em poucos minutos (sem contar as fritas e a bebida).  Um casal comia e conversava sobre o trabalho, prolongando a reunião na qual haviam participado pouco antes no serviço e para a qual voltariam em alguns minutos. Dois adolescentes ainda com uniforme escolar nem ao menos chegaram a se sentar, a agitação deles era tão grande que comeram de pé e partiram em tempo recorde. Eu, por meu lado, parecia uma verdadeira lesma. O atendente do restaurante chegou mesmo a demonstrar sua insatisfação em ver cliente que comia muito lentamente quando comparado aos demais. Chegou a me perguntar se a comida estava ruim ou ainda, momentos depois, se eu estava me sentindo bem.

Quando entrei no banco para pagar algumas contas, vi mais pessoas nos caixas eletrônicos que dentro da agência. É claro, a tecnologia permite e facilita, resolve e agiliza, não é mesmo? Dentro do banco também as coisas pareceram um pouco diferentes. Ao chegar ao caixa para o atendimento, percebi que o moço que me atendia mal olhara para mim. Na realidade, nem me cumprimentara, apenas pedira os boletos que eu tinha em mãos para processar o pagamento. Seus olhos raramente desviavam da tela do computador com o qual trabalhava. Talvez eles ganhem por produtividade... Quanto mais clientes atendidos, maior o bônus no final do mês ou do ano... De qualquer modo, o banco se parecia com aqueles restaurantes fast-food, no qual entramos pedimos, recebemos a bandeja em poucos minutos, comemos igualmente de forma acelerada e, depois de alguns minutos, já estamos fora do estabelecimento.

É, estava começando a achar que tinha dormido por pelo menos uns 30 ou 40 anos, como Rip Van Winkle, só que sem fechar os olhos...

Sai do banco e ao andar pelas ruas do centro, percebi a multidão que se apertava, ansiosa, alguns até aparentemente raivosos. Queriam todos resolver alguma coisa. Não dava para saber porque tanta pressa ou o que cada um tinha para fazer, mas que as pessoas demonstravam impaciência e urgência em suas passadas, isso era fato. O sinal abria e fechava para essas multidões atravessarem aquela perigosa e movimentada avenida, o que aumentava o stress, pois são tantos os carros na via pública e tamanha é sua velocidade de deslocamento, que isso acaba promovendo ainda maior exasperação entre os pedestres...

Gentilezas ou sorrisos entre as pessoas? Raros. Somente percebi alguns quando olhava dentro das lojas e via vendedores querendo a todo o custo negociar um conjunto de estofados, alguns aparelhos de som ou ainda roupas para seus clientes. Mas mesmo nestes casos o que deveria ser espontâneo e natural parecia forçado e artificial... Comecei a pensar que talvez hoje as pessoas nos vejam como cifrões ambulantes e que, ao invés de amigos e conhecidos, tenhamos contatos comerciais... Achei engraçado e comecei a rir discretamente desse pensamento.

E não é que um brutamontes que estava a poucos metros de mim achou que eu ria dele? Avançou em minha direção, com ar ameaçador, pôs-se a poucos metros de mim, deu a entender que poderia me agredir por ter rido dele e, quando lhe expliquei o motivo de minha discreta risada, saiu sem nada entender, não lhe pareceu motivo para tal. Pelo menos não fui socado por ele, não é mesmo? Mas, conclui que até o humor de hoje é diferente e que gentileza e espontaneidade não são artigos muito comuns na praça.

Ao chegar em casa, depois de um bom banho, com as crianças já a dormir, fiz um relato detalhado do que havia acontecido comigo nesse dia tão agitado para minha esposa. Ela riu da comparação que fiz com a história de Rip Van Winkle, mas não deixou de concordar, que talvez o que pensava fosse realmente verdade, ou seja, que este fora o dia em que me percebi dinossauro...

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

  1. Realmente estamos vivendo o fim da civilidade, das boas maneiras, do romantismo. O mundo caminha para a irracionalidade, a descortezia, a brutalidade.Um simples esbarrão em alguém na rua é motivo para um assassinato, tivemos umm exemplo disso esses dias no Rio de Janeiro.Passamos a ser refém de nos mesmos. As casas não são mais LARES, são refúgios e prisões. Dentro em breve teremos que nos enclausurar em nossas casas para são sermos molestados. Eu tenho saudades dos tempos que mandávamos flores para expressar a nossa amizade, o nosso amor e a nossa fraternidade com nossos semelhantes.
    João Machado.

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  2. Você descreveu o que esta acontecendo diariamente na vida das pessoas. Uma realidade que dificilmente vai mudar, o "urgente" substituiu o "importante". E o importante é o nosso "próximo", mas estamos nos distanciando cada vez mais, por causa da correria do dia dia.

    Um grande abraço
    Silvana

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  3. Isso é o nosso cotidiano , sem generalizar a sociedade esta perdendo seus costumes e valores INFELIZMENTE

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