O Homem Virtual
Alfredo era um sujeito pacato. Daqueles que tem poucos e bons amigos. Saia com eles para bater papo, tomar um chopp, jogar bola de vez em quando e até mesmo para algumas paqueras. O passar do tempo não afastara ninguém da turma. Nem mesmo as namoradas, que acabaram se tornando esposas, fizeram com que Alfredo, o único que permaneceu solteiro, se mantivesse distante de seus chapas. Pelo menos uma vez por semana eles estavam juntos.
Essa amizade começou, no entanto, a sofrer alguns pequenos desfalques depois de tantos anos de fidelidade. Começou com o Pablo. Faltou uma primeira vez, depois voltou. Fez-se ausente uma semana para a frente, mas ainda assim retornou. Quando o próximo mês entrou, não se viu mais aquele companheiro.
Como se fora uma febre, o mesmo aconteceu com o Marcão, o Arnaldo e o Mariano. Todos, um a um, abandonaram o barco. No princípio Alfredo pensou que talvez fossem as esposas de seus grandes amigos, os filhos que alguns já tinham, quem sabe até o trabalho, os fatores que acabaram impedindo cada um deles de se fazer presente nos encontros do grupo. De repente, encontrou com o Mariano na rua e resolveu perguntar-lhe o que havia acontecido, os motivos pelos quais ninguém se via mais.
O amigo então lhe disse:- Alfredo, continuamos por perto e sentimos sua falta. A modernidade está nos reunindo todas as semanas pela internet. O espaço virtual é o nosso ponto de encontro agora. Como você não entrou na grande rede, achamos que talvez ficasse deslocado ou sem graça por não conhecer suficientemente bem as tecnologias para nos acompanhar, por isso acabamos deixando você de fora. Mas queremos que entre conosco em nossas reuniões via web.
Alfredo relutava em aderir ao computador e todas estas tecnologias. A internet a princípio lhe parecia algo distante, difícil e até um pouco assustadora. Mas como seus amigos estavam por lá e ele sentia falta dos mesmos, resolveu aprender a usar aquelas máquinas e entrar no mundo virtual. Matriculou-se num cursinho próximo à sua casa. Ia a todas as aulas. Gostou da professora, bastante jovem, mas muito esperta. Aprendeu rápido. Logo já se sentia bem o suficiente para se aventurar por sites, blogs, chats, comunicadores instantâneos e outras ferramentas.
Comprou uma boa máquina em loja de sua cidade. Instalou-a em sua casa. Ligou a internet. Começou a navegar todos os dias. Fez uma rede. Reconectou-se com seus amigos. Foi muito além deles. Com seus perfis em redes sociais começou a conhecer muita gente e a rever tantas outras pessoas com as quais não tinha contato há algum tempo. Gostou tanto da brincadeira que passava horas e horas diante do monitor.
Sair de casa então se tornou algo que não lhe agradava. Fazia compras pelo computador. Pediu as contas no antigo emprego e começou a trabalhar em casa, utilizando o computador e a internet para prestar serviços e vender produtos. Garantia assim sua renda e, ao mesmo tempo, podia ficar navegando mais e mais horas. Arrumou até namorada pela web. E ela era linda. Loira, alta, de olhos azuis, corpo de modelo, daquelas mulheres que arrebatam os corações dos homens quando andam pelas ruas.
Como não se sentia seguro quanto a sua aparência e idade, Alfredo informara a bela Helena que era de tipo atlético, desses que não saem da academia, com uma bela e farta cabeleira negra (quando de fato já estava ficando calvo), olhos verdes (que na realidade eram castanhos) e que se parecia muito com um astro de cinema (quando no máximo poderia ser dublê do mesmo e de costas).
Seus amigos do peito de vez em quando falavam com ele pela internet. Reclamavam agora que ele não mais dava as caras pelas ruas da cidade. Comunicaram-lhe que tinham voltado a jogar bola e tomar uma cervejinha aos sábados. Nada disso interessava mais ao Alfredo. Sua vida era agora toda virtual. Amava Helena, ou a imagem que conhecia dela, pois seus encontros eram apenas no computador. Mal sabia ele que ela não era nada daquilo que lhe descrevera...
De homem simpático e sociável, presente na vida de seus clientes, dos quais sempre arrancava elogios pela presteza na loja em que trabalhava antes, Alfredo se tornara apenas uma sombra, um ser virtual. Se afastara dos amigos e padecia agora até de uma certa fobia em relação ao contato com outras pessoas. Raramente saía de sua casa. Receber visitas se tornara uma tremenda dor de cabeça para ele. Comia, bebia e dormia em frente ao computador. Nem TV mais assistia.
Depois de algum tempo sem que Alfredo aparecesse em qualquer lugar, mesmo que casualmente, os amigos resolveram ir até sua casa. Lá chegando bateram inúmeras vezes na porta. Viram que as cartas na caixa de correio tinham se avolumado de tal forma que indicavam uma casa abandonada. O jardim parecia uma selva. Jornais se acumulavam na varanda de entrada. Pensaram que Alfredo podia ter ido embora da cidade. Mas, sem avisar ninguém? Parecia muito estranho e, por isso, resolveram entrar a força na casa do amigo.
Tudo estava escuro. Havia um forte cheiro vindo da cozinha, onde as louças se acumulavam. Estava uma sujeira só, triste de se ver. Nem parecia o lar de Alfredo, um homem zeloso, limpo e organizado. No final do corredor, na altura do quarto do amigo, viram uma luz acesa, um indicativo de que ele talvez ainda estivesse por lá. Correram para o quarto, pensando que talvez tivesse passado mal...
Ao chegarem a porta, olharam para o quarto e nada viram... Somente o computador estava ligado e irradiava a luz que iluminava o ambiente... Caminharam na direção da tela e, para a surpresa de todos, ao olhar o monitor, viram que Alfredo estava lá dentro, como um avatar, a pular diante deles... Seu sonho de tornar-se homem virtual realizara-se, ele abandonara o mundo real e agora era apenas um ser cibernético... Gritava, pulava, queria sair de lá, mas já era tarde... Do outro lado da tela, seus amigos a tudo olhavam sem se espantar, imaginando qual programa de computador teria Alfredo usado para reproduzir de forma tão perfeita aquilo que um dia fora no mundo real dentro de um computador e ainda sem saber, ao certo, onde fora parar o amigo desaparecido...
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras


Torço para que ninguém se torne um avatar, mas é desconfortavel notar que muitas pessoas são apenas isso, hoje em dia. Não para si, mas para o mundo.
ResponderExcluirSempre criativo, hein! rsrs
Abraços.