Política e Verdade: Incompatíveis?

Precisamos de mais povo nas ruas, de mais engajamento e participação, 
de envolvimento com a política não apenas em períodos eleitorais, 
de fiscalização do poder público, de lutas e demandas sociais!

Pergunto logo no título aquilo que intriga a tantos brasileiros (e cidadãos de outras nações igualmente, em maior ou menor grau): Política e Verdade são incompatíveis? A primeira vista a resposta seria (ou deveria ser): NÃO! (Em letras maiúsculas e negrito, de forma pronunciada, para revelar até certa indignação em relação a quem questiona). 

Política refere-se ao todo de movimentos e ações, atos e pensamentos que engendramos durante nossas vidas, não apenas no espaço político-partidário propriamente dito, mas também quando negociamos e tentamos chegar a consensos e termos que sejam igualmente satisfatórios ou bons para quem está envolvido nas discussões em todos os espaços em que vivemos. Serve e aplica-se as relações familiares, de trabalho, no esporte, no lazer, no trânsito... E, é claro, também na política institucionalizada, principalmente nela, ou seja, no desenvolvimento das ações tanto do Executivo quanto do Legislativo.

Com isso, já de imediato quebramos uma barreira, aquela na qual tantas pessoas se escoram, a saber: A intenção de ser apolítico, de não atuar dentro daquilo que se concebe popularmente como política. Até porque a maior parte das pessoas confunde alhos com bugalhos e a Natureza com Ana Tereza, o que nesse caso significa dizer, metem os pés pelas mãos no tocante a política e politicagem...

Tendo entendido o que Aristóteles há tanto tempo nos dizia, ou seja, que o homem é animal político por excelência, sempre a disputar espaço, discutir situações, colocar em voga e destaque suas opiniões, conceitos, visões de mundo... Fica mais fácil perceber que a resposta para a pergunta que abre esta pensata poderia ser "Não"! Pelo simples fato de que todos fazemos política em algum momento ou a realizamos mais vezes em nossas vidas do que imaginamos, sem que isso signifique que estamos passando alguém para trás, agindo de forma corrupta, atropelando interesse público em benefício de uma pessoa ou grupos... Percebemos que, sim, é possível conciliar Política e Verdade!

Pode-se, é certo, questionar o conceito de Verdade, tão instável e sujeito as variações de contexto, clima, grupo, cultura... Trabalhemos então com a ideia de que a Verdade consiste simplesmente na postura e atitude correta, moralmente assim considerada, através da qual as pessoas agem dentro dos princípios que norteiam o pensamento e a vida estabelecidos em leis (nossa Constituição e todos os demais Códigos legais que dão suporte a mesma, nos diferentes níveis e instâncias).

Faltar com a Verdade seria então, contrariar as leis e, também os códigos de conduta e moral que orientam a sociedade estabelecida. Roubar, estuprar, sequestrar, invadir propriedades alheias, desviar verbas, adulterar processos licitatórios, praticar pedofilia ou adultério, andar na contramão, jogar lixo nas ruas, estacionar em local específico para idosos ou deficientes, furar fila no banco, beneficiar-se de cargos e posições de comando para obter benefícios e tantas outras situações previstas em lei ou percebidas socialmente como incorretas, constituiriam portanto o contrário do que estamos aqui chamando de Verdade...

Não entramos então no jogo da oposição de opiniões, que pode fazer com que a minha Verdade seja vista, compreendida e rejeitada pelo outro, chamada então de Mentira. Não é nesta seara que estamos caminhando, mas no campo da Cidadania, da Ética, da Dignidade e do Respeito pelo outro, aquele com o qual dividimos espaço nesse mundo. E, diga-se de passagem, não só ele, mas igualmente o mundo natural que nos cerca, que tanto temos agredido nestes últimos tempos...

Se pararmos para pensar na questão que se propõe neste texto ainda em seu título, localizando os embates na arena político-partidária especificamente e pensando verdade sob o prisma da cidadania, pode ser que muitos (senão a maioria) se atreva a dizer que na realidade a resposta deveria ser: SIM! (igualmente com ênfase, destacada pelas maiúsculas, se bem que sem o negrito, em vista da tristeza de ter que afirmar isso em alto e bom som).

Pelo que percebemos a partir do que ocorre tanto no Legislativo quanto no Executivo e que nos é mostrado pela imprensa, a realidade parece nos dizer e mostrar, levando-se em consideração inúmeros exemplos (como os mensalões, os caixa-dois de campanhas eleitorais, as falcatruas em licitações, o favorecimento de parentes, a contratação de empresas fantasmas, a compra de votos...) que Política e Verdade são mesmo incompatíveis...

Não é o que quero acreditar. Tampouco o que defendo. Diferentes opiniões no cenário político demonstram que o debate democrático pode e irá, por certo, valorizar o desenvolvimento da sociedade, mas o que realmente há de diverso e novo na cena política nacional que nos tire dos olhos a percepção de que a mera troca de políticos e partidos pouco ou nada incorpora ao manejo e trabalho dentro da máquina pública?

Quem nos garante que nestas e em próximas eleições teremos partidos e políticos realmente dispostos a conciliar Política e Verdade? Será apenas utopia? Ou viveremos para ver estes dias?

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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