Presente de Pai
A mão grande estendida em minha direção me chamava: Vamos filho, é hora de levantar, ir para a escola. Não era somente o tamanho que se destacava, a força dela proveniente era igualmente impressionante para mim, a nos guardar, proteger e orientar. A voz grave, que podia também se transformar num cântico ou história agradáveis quando necessário também marcou minha infância, assim como a de meus 3 irmãos. Apesar da barba e do bigode sempre presentes, o que poderia dar-lhe um aspecto de severidade ou mesmo fazer com que aparentasse ser bravo, nosso pai sempre preferiu o diálogo, a palavra, o bom-humor como respostas as traquinagens que vez por outra um de nós aprontava.
Sabia a hora certa de cobrar, assim como de confortar, de acalentar, de se mostrar amigo ou mesmo de endurecer a conversa. Como dizia um célebre revolucionário que se assemelha a meu pai por conta de sua barba e bigode onipresentes, não perdia a ternura jamais, ainda que por vezes viessem os puxões de orelha, literalmente falando, para qualquer um de nós, sem distinção, do mais comportado a mais levada...
Sempre que me lembro do tempo em que moramos juntos o que me vem a mente é a sua disposição de participar de nossas vidas. Ainda que trabalhasse muito, inicialmente ligado a uma grande empresa do ramo petrolífero, posteriormente como empreendedor individual, havia tempo para os filhos. Nos acompanhava quanto ao rendimento escolar pela marcação homem a homem empreendida pela parceira de todos os momentos, nossa mãe, que estando em casa era a representação de si mesma e de seu marido na defesa de nossos interesses, guardando-nos sob suas asas. Quando necessário, ia ao quarto de um de seus filhos, depois de alertado por nossa mãe quanto a queda de rendimento, por exemplo, e com suas palavras demonstrava sua preocupação, seu desejo de ajudar, sua intenção de estimular, de virar o jogo. Não desanimava jamais, mesmo nos quadros e momentos mais difíceis pelos quais passamos.
Homem de fé, nos levou para missas mesmo que a princípio um tanto quanto a contragosto de cada um de nós, ainda incapazes de entender os reais significados do catecismo, da crisma, das missas, do confessionário e dos sacramentos. Tinha amigos religiosos que por vezes almoçavam conosco, o que rendia boas conversas e histórias, como aquela em que interrompi a refeição e pedi para contar uma piada. Ele e minha mãe imediatamente ficaram sem ação, paralisados, temerosos do que estava por vir. O padre, bastante simpático e desfrutando de nossa mesa e companhia, não se fez de rogado e disse: "Vá em frente meu rapaz!"
Sem saber ao certo o que eu iria falar, tanto meu pai quanto minha mãe tentaram interromper minha ação e entusiasmo naquele momento dizendo não ser oportuno. Para que conseguisse contar a anedota, resolvi então colocar na mesa a carta que tinha debaixo da manga e disse: "É uma piada de padre". Foi uma risada só e consegui, ao final, ainda que tal anedota tivesse palavrões, contá-la para o visitante...
Entusiasta dos esportes, logo nos levou para as piscinas, onde durante alguns anos fomos desenvolvendo não apenas nossos físicos e saúde, mas também o caráter, o companheirismo e a luta pelas conquistas a serem obtidas nas competições que tínhamos pela frente. Aprendemos a lutar sempre, sabendo que há glória no esforço ainda que nem sempre cheguemos ao ponto mais alto do pódio. E ele, com minha mãe, sempre por perto, acompanhando-nos em nossas viagens para diferentes cidades onde iríamos nadar.
Aprendi com ele, além das coisas da escola, do esporte e da religião, para as quais encaminhou todos os filhos, que o melhor caminho para a resolução de qualquer problema passa necessariamente pelo diálogo, compreensão, bom humor e sinceridade. Ainda que tenhamos vivido algumas dores, sempre manteve o controle da situação sem perder a compostura, a elegância. Estava a frente de tudo, encaminhava, resolvia, se propunha a solucionar o que quer que fosse. E continua assim: forte, saudável e decidido.
Tento ser assim. Tive exemplo dentro de casa. Não que nada tema ou que não fique preocupado, mas me sinto capaz, competente e de bem comigo mesmo para tentar e, no espírito de meu pai, conseguir.
Quando alguma coisa quebrava em casa ou no trabalho, lá ia ele, consertar. Mexia com fios elétricos, antenas, máquinas diversas, canos e tubulações, motor de automóvel... Nada lhe parecia impossível. E como aprendi com isso! Hoje me vejo fazendo as mesmas coisas, subindo em telhados, desmontando equipamentos, fuçando no motor de meu carro, tentando consertar a TV...
Meu pai foi e continua sendo uma pessoa que tem verdadeira paixão pela vida. Ama aos seus próximos como poucas vezes vi alguém fazê-lo. Herdou de seu pai aquela sobriedade e dignidade próprias de quem realmente está passando por esta Terra para fazer o bem e legar mais que exemplos, uma história de vida bonita, que encanta e mostra o quanto é possível e necessário ser honesto e honrado. Todas as pessoas que o conhecem, entre os quais muitos de meus amigos, confessam admirar seu carisma, simpatia, humor e alegria.
De meu avô também recebeu como parte do legado paterno um jeito um tanto quanto desligado de ser, que faz com que se esqueça de algumas coisas, como por exemplo quando foi ao centro da cidade, deixou meu irmão caçula na padaria comprando pão enquanto ia me buscar na casa de minha namorada e esposa... Como não havia nos dito nada sobre o meio do caminho, voltamos para casa despreocupados. Ao lá chegarmos, minha mãe a lhe esperar na entrada de casa logo lhe perguntou sobre o que deveria ter comprado na padaria... E ele então se lembrou que deixara meu irmão por lá...
E quantas histórias teria para recordar neste espaço, nestas letras. O que fica, hoje e sempre, é a figura do homem que sempre me inspirou a ser quem sou e a quem devo tanto, apesar dele não querer nada em troca, a não ser o amor incondicional, o respeito, a estima e a consideração que sempre teve por nós como contrapartida.
E é isso que eu, minha família, meus irmãos e todos que o conhecemos temos a lhe dar sempre: nosso amor e gratidão eternos.
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



Não tenho palavras prá agradecer como voce foi íntegro e leal ao descrever o nosso pai; ADOREI.
ResponderExcluirBeijos da sua irmã levada....