Seu voto, sua vida...
Juliano queria muito aquele emprego. Havia se preparado para a dura concorrência que teria pela frente. Estudara dias à fio. Sabia que era, literalmente, uma questão de vida ou morte. Só sobreviveriam no rigoroso sistema de seleção aqueles que preenchessem todos os pré-requisitos. E lá estava ele, no dia certo, na hora marcada. Eram aproximadamente 500 pessoas pleiteando a vaga em questão, com salários iniciais na cada dos 10 mil reais, uma verdadeira fortuna para ele e todos os demais.
Fizera uma boa faculdade. Terminara o curso de inglês. Foi perseverante e fez os necessários módulos de informática. Conhecia bem a legislação. Tinha um bom controle de si mesmo para enfrentar dinâmicas, por mais malucas que fossem, e também entrevistas de trabalho. Percebera que havia outros como ele, mas confiava plenamente em suas habilidades. Era competente mesmo.
Quando foi chamado, respondeu prontamente as perguntas, demonstrando segurança. Percebeu que o entrevistador ficou impressionado com ele, que apesar de jovem ainda, parecia um veterano, tamanha sua confiança. Passados alguns dias, foi chamado para a segunda fase. Daquele grande contingente de aspirantes ao cargo agora restavam apenas 50 pessoas. Era uma espécie de segundo turno, a hora da verdade.
Aplicadas algumas dinâmicas, foram informados que deviam esperar. Apenas 5 deles permaneceriam para uma etapa final na qual surgiria o selecionado para a vaga. Passaram-se perto de 3 horas e Juliano estava já um pouco ansioso. Notara que os demais concorrentes também estavam assim, mas todos tentavam demonstrar tranquilidade e controle da situação. Ninguém queria parecer despreparado para o cargo. Todos estavam vestidos com ternos, camisas bem passadas, usavam gravatas, sapato social, ou seja, estavam a caráter para a importante posição que almejavam.
Veio então a notícia. A portadora da informação foi falando: Alexandre Nunes, Carlos Alberto Ferreira, Émerson Oliveira, Jailson Silva e... Juliano Silveira. Cinco aprovados e o nome de Juliano, coincidentemente, fora o último a ser mencionado. Ele nem se dera conta de que a lista estava em ordem alfabética. O importante, no entanto, é que conseguira vencer mais uma barreira, mais uma etapa fora ultrapassada.
Vieram então provas de proficiência em língua estrangeira e uma estranha atividade na qual tiveram que entrar na internet e navegar em busca de informações sobre Machado de Assis e Monteiro Lobato. Não entendera bem aquilo, depois de ler alguns links a respeito dos dois literatos brasileiros, eles deveriam organizar um texto para um jornal em que falassem da importância da obra dos dois escritores. Realizou a missão, tentou fazer o melhor que podia, mas não achou que fosse tão importante assim, pois o cargo para o qual estava sendo contratado exigia mais conhecimentos técnicos, para a área de engenharia. Considerou mais importante o seu desempenho na prova de proficiência em língua inglesa.
Dois dias depois veio a informação da empresa, por e-mail, agradecendo sua participação e comunicando que não fora ele o escolhido. Logo desconfiou de alguma armação, de algum candidato apadrinhado no processo de seleção... Nem pensou no fato de que a prova final, sobre os dois gigantes da literatura brasileira, pudesse ter comprometido sua seleção naquele processo...
Dias depois, como estávamos em época de eleição para presidente, governador, senadores e deputados (federais e estaduais), Juliano foi as urnas. Não sabia direito ainda em quem votar. Pensara nos candidatos a presidência muito superficialmente e parecia propenso a escolher aquele que se comprometera a criar milhões de vagas de emprego caso eleito. Não analisara matematicamente se isso seria viável ou não, mas gostava também do visual do candidato, que lhe parecia honesto. Além do mais, era indicado pelo atual governante, pelo qual a população tinha grande estima.
Não se preocupara em ver seu histórico pessoal e profissional. Nem tampouco pensara em averiguar seus antecedentes para ver se estava envolvido em alguma falcatrua. Em relação aos cargos do legislativo então, menor preocupação ainda! Achava chato ter que ir as urnas, mas como era obrigatório, se encaminhava para a velha escola onde estudara, que parecia estar mais acabada ainda, ficava na fila e votava.
Seus amigos lhe disseram para votar em deputados de sua região. Candidatos que, segundo eles, sempre lhes arrumavam alguns bicos e lhes ajudavam com verbas para a igreja do bairro, o time de futebol dos amigos e, ainda, se mostravam dispostos a lhes dar cestas básicas ao longo do ano. Havia até alguns que ajudavam a comprar materiais escolares para as crianças da cidade. Não pensou duas vezes. Digitou o número deles nas urnas eletrônicas.
Para o senado votou no candidato que era mais conhecido e que sempre concorria e se elegia. Não gostava de perder seu voto. Achava que se votasse em algum outro poderia desperdiçar todo o trabalho que tivera para ir até a seção eleitoral. Desconfiava um pouco daquele velho senador, já até ouvira algumas acusações contra ele na televisão, mas ainda assim sabia que fora ele o responsável pelas verbas que reformaram estradas da região em que morava. O povo dizia que ele roubava mas fazia e ele, Juliano, achava que para isso não havia remédio e que era melhor votar nestes que naqueles que roubavam e não faziam... Não acreditava em políticos honestos, para ele tão improváveis quanto Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa...
Para o cargo de governador, como não gostava do semblante de nenhum dos candidatos, resolveu anular seu voto. Não sabia que ao fazer isso estava beneficiando alguém. Sua omissão lhe parecera ato simples, que prejuízo algum lhe causaria (ou a qualquer outra pessoa). Mas, e se o vencedor arruinasse as finanças de seu estado nos próximos 4 anos. O que aconteceria com a saúde, a educação, o lazer, os empregos ou a segurança pública? Nem cogitou tal possibilidade...
Juliano, que se preparara tanto para um cargo numa grande empresa e vira quão rigoroso é o processo de seleção, de repente demonstrara que não havia aprendido lições essenciais para o exercício da cidadania... Seu voto, dado ao acaso para alguns dos nomes que pretendiam a vaga, foi literalmente jogado no lixo... Não fizera seu dever cívico e, por conta disso, estava perpetuando o ciclo político brasileiro no qual se mantém no poder tantas e tantas raposas... Juliano estava dando a elas, a chave do galinheiro...
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras


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