Educação: Histórias de Cinema na Sala de Aula...


João Luís de Almeida Machado é Doutor em Educação pela PUC-SP, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura, pelo Mackenzie –SP e Graduado em História. Autor dos livros “ Na Sala de Aula com a Sétima Arte” (Editora Intersubjetiva) e "O Prazer de Aprender a Aprender" (Editora Multifoco). Atua como professor na Faculdade Bilac e no Sistema Poliedro de Ensino. É estudioso do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação na Educação e do uso do Cinema na Escola. Recentemente ingressou na Academia Caçapavense de Letras. Diz que aprendeu muito com filmes quando criança, e acredita que os alunos também podem aprender.

1- No seu livro “Na Sala de Aula com a Sétima Arte”, além dos subsídios para a realização desta prática, você demonstra uma grande paixão pelo cinema . Como surgiu essa paixão? E a inspiração pelo livro?
JL - A paixão surgiu quando ainda era criança. Eu me lembro das primeiras vezes que fui ao cinema para assistir desenhos animados, os primeiros filmes, e... é dessa época. A transposição para a sala de aula aconteceu porque eu percebi que eu aprendi e continuo aprendendo muitas coisas vendo filmes. E imaginei que isso pudesse acontecer também com os alunos. E resolvi levar para a sala de aula esse recurso. No começo eu carreguei equipamentos literalmente nas costas porque as escolas ainda não tinham. E eram pesados! (risos) E fui produzindo aos poucos. Tentando, tateando, testando, acertando muitas vezes, errando algumas. Mas fui tentando, e deu certo! Eu recebo ate hoje cartas, e-mails, dos alunos comentando das aulas, dos filmes, de como eles ainda se lembram das temáticas e de como aquilo ficou forte para eles.

2- Quais eram as suas expectativas em relação a livro. Seria causar uma revolução em sala de aula?
JL - Queremos ajudar, compor possibilidades, criar novas perspectivas para a educação. Principalmente quando somos mais novos. Quando temos muita disposição, vontade de fazer as coisas funcionarem bem, do mundo ser mais justo, mais digno, mais honesto. Os ideais, para muitos, acabam sendo perdidos com o tempo. Por muitas questões. Dizem que somos incendiários quando garotos e bombeiros quando adultos. É verdade que a maturidade ajuda muito, mas eu acho que não perdi o meu lado incendiário. Continuo querendo que as pessoas trabalhem pelo melhor. Talvez tenha um pouco disso sim, nessa proposta, nessa realização.

3- Diante de qualquer experiência nova, sempre haverá barreiras. Você encontrou algum tipo de dificuldade para a aplicação desse recurso?
JL - Resistência sempre existe. Atualmente é muito menor, está praticamente desaparecendo. Porque os recursos tecnológicos estão se integrando com mais facilidade a realidade da sala de aula. Mas no princípio as pessoas pensavam que era uma forma de não dar aula. De matar o tempo da aula. Onde há resistência, há dúvida. E o trabalho, na realidade, sempre teve todo um planejamento, um objetivo, clareza quanto aonde se quer chegar. Nunca foi em vão. Não poderia fazer isso, senão eu estaria queimando o recurso. O filme é valioso e temos que utilizá-lo. Mas devemos utilizar de forma consciente. Saber onde queremos chegar e o como isso posso compor, enriquecer e dar mais subsídios aos alunos.

4- O uso desse recurso em sala de aula ocorre com maior ou menor frequência nos dias de hoje? Porque ainda há alguma resistência ao uso dos filmes em aulas?
JL - O uso dos filmes demanda planejamento e os professores em muitos casos, por conta de sua rotina extenuante, sem tempo para realizar esta programação com tais recursos, só de imaginar que vão ter que assistir os filmes, separar alguns trechos, programar a aula fazendo paralelos com outros recursos, entre outras etapas, acabam não tendo como levar adiante ações desta natureza. Para muitos, a atividade consiste, infelizmente, simplesmente em levar um filme para sala de aula, aplicar e pedir aos alunos que produzam relatórios, resumos ou que respondam algum questionamento! Mas a aplicação do filme tem que ser percebida como parte do trabalho, propondo, instigando, provocando o estudante a uma nova ação e reflexão. Não consigo pensar esta proposição de trabalho com filmes de outra forma. 

5- Como despertar no professor o interesse do uso da arte, como o cinema, a música a poesia, na atividade docente?
JL - Creio que isto acontece com a divulgação, a socialização de informações e ações. É o que temos tentado fazer com livros, palestras, oficinas e através de projetos como o “Curta na Escola” (www.curtanaescola.org.br), no qual trabalho atualmente como consultor pedagógico. 

6- O educador deve selecionar o filme que realmente auxilie a compreensão de sua matéria. Como deve ser feita esse seleção? E como o professor deve preparar os alunos?
JL - A seleção de um filme para utilização em sala de aula deve sempre ser feita seguindo a necessidade pedagógica do curso que está sendo ministrado. A escolha não pode ser impune e, o que quero dizer com isso é que estas produções devem ser selecionadas como recursos que adicionam, enriquecem, aumentam as possibilidades e dinamizam as ações pedagógicas desenvolvidas. Filmes são elementos lúdicos, que agradam e entretêm aos que assistem, isso é importante, deve ser explorado, mas tais elementos, quando usados na escola, devem possibilitar mais do que isso, legando conhecimento, por isso eles devem ser sempre conexos com os temas trabalhados e, de preferência, devem fomentar o surgimento de produções por parte dos estudantes, como tarefas, trabalhos, projetos em grupo, questões em avaliações...

7- Como você avalia os resultados após aplicação de um filme? E suas experiências, são positivas?
JL - Creio que as melhores avaliações que obtive quanto ao uso dos filmes em sala de aula não foram as mais imediatas. Estas também foram boas e importantes, porque consegui perceber, na grande maioria dos casos, que os estudantes compreenderam os temas trabalhados nas aulas e que os filmes auxiliaram bastante este entendimento. Mas, em várias situações, algumas anos depois destes trabalhos terem sido realizados, ouvi depoimentos espontâneos de ex-alunos dizendo que ainda se lembravam dos conteúdos, das ideias trabalhadas em aulas nas quais utilizáramos filmes. Ou seja, para eles, a compreensão de tais saberes discutidos em nossas aulas ficou mais fácil e, para que isso acontecesse, os filmes ajudaram muito, foram decisivos. É claro que nem sempre as ações com filmes foram totalmente válidas ou positivas, mas penso que nos momentos em que tais trabalhos não deram tão certo, ainda assim foi possível aprender alguma coisa.

Obs. Recomendação de leitura adicional - DAS TELAS PARA AS SALAS DE AULA, matéria da Profissão Mestre, recomenda filmes na escola e indica sites como o Curta na Escola e o Cinema de Primeira (www.cinemadeprimeira.com.br), além de livros sobre o assunto, em http://bit.ly/d5TEMW

Trecho de Entrevista concedida as alunas Regiane Aparecida de Abreu, Sara Maria Freitas Silveira, Selma Marinalva dos Santos e Sílvia Roberta de Almeida Vasconcellos, do curso de Pedagogia, da Faculdade Bilac, estabelecida em São José dos Campos.

Comentários

Postagens mais visitadas