No Moedor de Carne
Acem, Patinho, Alcatra, Filé Mignon ou Picanha, tanto faz se a carne passe pelo moedor. De 1ª ou de 3ª, ao ser triturada, moída, esfacelada, no final das contas é tudo carne moída. É claro que o sabor é diferente. Os especialistas em carne certamente hão de me achar um herege ao afirmar que depois de passar pelo triturador tudo fica igual no final. Se são mais macias certas partes do boi ou da vaca, se apresentam mais ou menos nervuras, se tem ou não capa de gordura, tudo se dilui e se apascenta, se incorpora se misturarmos, se transforma numa massa amorfa em que se destacam os tons vermelhos e brancos...
E que alegoria nos é permitida quando pensamos que estas carnes podem ser entendidas como todos e cada um de nós a passar pelo moedor de carne que diariamente nos processa ou que pensamos processar no movimento intenso da vida.
E se fosse apenas intensidade até que seria pouco, talvez até bom, quem sabe mesmo proveitoso e saboroso, pois quem há de abrir mão de um amor intenso, de um trabalho bem realizado justamente porque estivemos nele envolvidos de corpo e alma ou ainda de uma viagem que nos permita viver de forma plena uma localidade, um povo, uma cultura?
É para além da intensidade a loucura com que se pronuncia a velocidade contemporânea entre nós, meros mortais, reles seres humanos. E o mais interessante é que quem se propõe a isto somos nós mesmos, na busca infindável por uma felicidade que nos parece sempre muito distante, a povoar nossos estimulados sonhos de consumo, conforto, comodidade, riqueza...
Por isso nos esprememos por locais onde milhares de outros como nós querem encontrar o fim do arco-íris e o pote cheio de ouro. Também por este motivo vil é que nos colocamos em marcha lenta em concorridíssimos congestionamentos pelas cidades em que vivemos. Certamente por esta ilusão de contentamento é que sacrificamos família e amigos sem que percebamos isso e, até, imaginando que estamos na labuta justamente por eles...
Não há tempo para refletir sobre o que somos. Nem podemos, tampouco devemos. Porque se assim o fazemos nos tornamos rebeldes, carentes, párias e insanos. Não é negar o trabalho, a realização, até mesmo a cultuada produtividade o que se quer... Apenas devolver aos homens e mulheres o que lhes é mais característico, a sua humanidade - com suas cruezas e alegrias, incertezas e possibilidades, alegrias e infortúnios...
Como ser humano, com tudo aquilo que lhe é peculiar e cabível, se no frigir dos ovos, ou melhor, no acionar do moedor de carne, somos descaracterizados e transformados num monte indecifrável de carne que nos faz nada e ninguém, apenas materia-prima a ser consumida pelos vermes que nos esperam quando ocorrer nosso último suspiro...
Por João Luís de Almeida Machado


Nossa vc verbalizou a minha sensação quando fala "na busca infindável por uma felicidade que nos parece sempre muito distante, a povoar nossos estimulados sonhos de consumo, conforto, comodidade, riqueza..."
ResponderExcluiré bem isso a gente sempre acha que terá um pote de ouro no fim do arco-íris.. se mata e deixa as coisas importantes sempre sendo postergadas...
e qndo se depara faz anos que está para visitar um amigo e nunca vai, aquela viagem q sempre fica pra dps, pois a prioridade é a reforma da casa, roupas, cursos...
E qndo vc vai na casa do seu avô fica pensando como os anos passam rápido.. os cabelos estão cada vez mais brancos...
E pensar que os vermes nos aguardam...(cruel)
Precisamos rever com urgência nossas vidas.
Saudades Professor!!
"Como ser humano, com tudo aquilo que lhe é peculiar e cabível, se no frigir dos ovos, ou melhor, no acionar do moedor de carne, somos descaracterizados e transformados num monte indecifrável de carne que nos faz nada e ninguém, apenas materia-prima a ser consumida pelos vermes que nos esperam quando ocorrer nosso último suspiro..."
ResponderExcluirAproveito a página aberta para ressaltar mais uma vez a questáo a ser profundamente reflexionada.