De quem é a culpa?


Marcelo (nome fictício) era um garotinho lindo, inteligente, de olhos claros. Seus pais, bem-sucedidos em suas áreas de atuação profissional garantiam a ele e a irmã uma confortável vida de classe média alta no interior de São Paulo. Na escola, o rendimento do menino na educação infantil e ensino fundamental foi irretocável, com resultados que faziam prever um futuro brilhante. Tirava notas altas, era participativo, tinha opinião (as vezes parecia até mesmo um pouco teimoso ou arrogante demais de acordo com a situação). 

Marcelo vivia no melhor dos mundos. Tudo aquilo que desejava e pedia aos pais era logo colocado ao seu alcance. Como eles trabalhavam muito para manter o conforto que haviam atingido e o status social ao qual haviam chegado, o tempo disponível para o garoto e sua irmã Rafaela não era o ideal. Apesar disso, os presentes pareciam compensar as ausências e com a adolescência chegando, os pais passaram a dar maior liberdade para seus filhos. Podiam fazer o que achassem melhor. Apesar de serem apenas adolescentes, insuflados pelos progenitores, Marcelo e Rafaela passaram a escolher, por conta própria desde a roupa que vestiam até os lugares por onde circulavam.

A chegada aos últimos anos do Fundamental foi um prenúncio do que estava para vir... O rendimento caiu, alguns amigos um pouco estranhos e diferentes surgiram, o garoto ficou mais recluso, a distância para os pais que já era grande ficou ainda maior. Alguns problemas de disciplina surgiram na escola onde sempre estudara. Tinha desrespeitado alguns professores, não levava materiais as aulas, raramente anotava alguma coisa, ficava devendo tarefas e trabalhos escolares.

Como era inteligente e tivera uma sólida formação anterior, conseguiu se formar no 9º ano sem maiores problemas. Ainda tinha crédito. Mas já demonstrava sono nas aulas, preguiça e indisposição incomuns até mesmo para adolescentes. Ainda assim os pais achavam tudo normalíssimo. 

A separação do casal logo que o filho chegara ao Ensino Médio pareceu piorar ainda mais o quadro de Marcelo. Saia a noite e ficava até muito tarde em festas, bares ou pelas ruas. Dizia estar com a galera ou com alguma garota. Seus olhos vermelhos eram explicados como resultado do sono que estava sentindo. O cheiro de álcool e os cigarros começaram a aparecer entre os pertences do garoto. Chegar ao 3º ano foi bem mais difícil que concluir a fase anterior de estudos. Suas notas eram reflexo de seu total descaso e falta de compromisso com a escola. Ainda assim chegou ao final e pegou o diploma. Seus estudos pararam por aí...

A esta altura já consumia maconha livremente, sem se sentir impedido pela presença da mãe ou da irmã, com quem ainda vivia. Decidira, no entanto, que era hora de voar. Mudou-se para o litoral e lá alugou uma casa simples na qual montou uma oficina de skate. As pranchas com rodinhas faziam parte de sua vida desde muito novo e era uma forma de ganhar algum e patrocinar o vício que o estava consumindo.

Os gastos eram, porém, muito mais altos que o que entrava. Para compensar, é claro, Marcelo passou a vender maconha, ecstassy, crack e até cocaína. Já havia perdido totalmente a batalha e de consumidor se tornara distribuidor. Mesmo com esse dinheiro engordando seus rendimentos ele continuava no vermelho. E devia também para os traficantes que o abasteciam com os tóxicos. 

Perdeu a casa pois não pagava o aluguel há meses. Sua oficina de skates já havia sido detonada meses antes. Sem o ponto, nem mesmo o que minguava com a droga aparecia. Aos 27 anos parecia um velho, barbado, pelas ruas, enconstado em um canto qualquer das tantas cracolândias que existem pelo Brasil afora. Sujo, com cabelhos muito compridos, sem qualquer perspectiva futura, Marcelo fora derrotado...

E a vida que jogara fora, pela janela, não havia sido desperdiçada apenas pelas drogas que o consumiram... As questões começaram antes disso, dentro de sua casa, com os pais que tudo lhe permitiam, com os desejos que sempre foram atendidos, com a liberdade sem responsabilidade que sempre tivera, com a retaguarda que lhe foi dada em todos os momentos de sufoco na escola ou nas ruas quando ainda vivia com a mãe...

Obs. A história acima é verídica, os nomes foram alterados assim como alguns detalhes de contexto.

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

  1. É triste ler isto ,ainda mais por ser tão verdadeiro,normal,comum.......Não banal!Ontem mesmo uma mãe me confidenciou estar passando por isso com o seu único filho......e filho que se tornou pai pela terceira vez!!!Ela é uma pobre faxineira,mora longe,rala muito,nem pode ser chamada de consumista........De quem será a culpa?????

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