Atropelado pelos ponteiros do relógio...


De tanto correr... Um dia ele foi atropelado pelos ponteiros do relógio. Literalmente falando, isso aconteceu com Getúlio e acontece todos os dias com tantas e tantas pessoas. E o pior é que a maioria nem se dá conta! Mas, vamos ao que interessa, a história deste infortúnio vivido pelo nosso mencionado amigo.

Vivia Getúlio numa normalidade que lhe parecia normal demais. Acordava cedo, tomava seu café, dirigia-se para o trabalho, cumpria sua rotina profissional, batia o cartão no final do expediente e por volta das 18 horas estava de volta.

No caminho de retorno para casa parava na praça principal da cidade pacata na qual vivia. O ônibus da fábrica deixava por lá várias pessoas amigas e não era incomum que caminhassem juntos ou ainda que parassem para um café ou mesmo para uma cerveja nas sextas-feiras sagradas.

Mário, Paulinho e Jonas eram os companheiros mais regulares. Eventualmente Eduardo e Thiago também participavam. O importante é que havia tempo para esta confraternização não agendada, mas saudável, apropriada, gostosa mesmo, na qual todos podiam contar piadas, comentar sobre o time da fábrica, falar da política local e, ao mesmo tempo, degustar uma iguaria da padaria local ou da cantina do Arthur, também velho amigo de antigos carnavais.

O papo era muito bom, o stress do trabalho se dissipava, até mesmo esposas e namoradas dos rapazes entendiam que estes momentos eram muito necessários. Além disso, poucas foram as vezes que eles se excederam e extrapolaram a hora. Na maior parte dos casos, assim que escurecia um pouco, Getúlio e os amigos voltavam para suas casas.

Do encontro com os amigos para casa era também um caminhar natural. Aguardados por esposas e filhos, ou pelos pais e namoradas, como no caso dos mais novos da turma, como Jonas e Thiago, ao chegarem eram abraçados e recepcionados sempre de modo a dar-lhes uma segurança, um conforto e uma tranquilidade que lhes traziam os melhores sentimentos.

Mas um dia chegou que o chefe de todos eles mudou. Seu Travassos, dono daquela empresa familiar tão tradicional na região recebeu uma proposta irrecusável de investidores estrangeiros e acabou vendendo a fábrica. Estava com idade avançada, queria parar e viajar, curtir os netos e, depois de tantos anos dedicados aquela empresa, esta era a oportunidade ideal.

Os novos gestores, homens de preto, com ternos Armani, sapatos italianos e reluzentes carros importados, logo impuseram um novo ritmo. Horas extras começaram a ser exigidas. A produtividade tinha que aumentar. A concorrência globalizada era feroz. A tão falada reengenharia de custos e processos estava acontecendo. Os que não se adaptassem aos novos tempos teriam que mudar ou seriam dispensados. 

Preocupados os amigos resolveram se aplicar no trabalho. Alguns perceberam a necessidade de estudar mais e começaram novos cursos, na faculdade do município vizinho, nas escolas de línguas da região, nos cursos de informática. As novas demandas exigiam competências e habilidades que tinham que aperfeiçoar e, ao mesmo tempo, uma postura mais agressiva, competitiva...

Começaram a chegar mais tarde em casa. Os encontros dos amigos foram escasseando. Tornaram-se raros. Alguns participantes sumiram do mapa. Getúlio trabalhava de sol a sol e, com isso, ao chegar em casa, estava exausto e pouco disposto a brincar com os filhos ou mesmo conversar e namorar com a bela Marta, pela qual tanto lutara nos anos de colégio para conseguir namorar. Tudo parecia ter perdido o sentido. O relógio tocava pela manhã e parecia que era como ontem, ou seja, como se estivessem vivendo o mesmo dia de forma infinita.

As demandas profissionais aumentavam e Getúlio percebia que ele e os amigos mal se falavam, que até mesmo para o almoço na fábrica pareciam ter menos tempo disponível, comiam depressa para voltar para o trabalho e fechar aquelas pautas e projetos ainda não completados. As dores de cabeça, nas costas e o cansaço não deixavam mais o corpo daquele homem. E quando encontrava com algum colega escutava iguais depoimentos.

A fábrica crescia. Os estrangeiros que haviam comprado o negócio apareciam agora de helicóptero ou com carros ainda mais potentes, reluzentes e luxuosos. Os funcionários, por outro lado, pareciam carvoeiros franceses ou ingleses do século XIX, visivelmente abatidos, com olheiras, dores espalhadas pelo corpo, estressados e infelizes. Só faltava mesmo vê-los sujos pelo carvão daqueles tempos iniciais da Revolução Industrial.

Foi numa dessas que Getúlio acordou, olhou para o lado e não viu Martha. Pensou estar muito atrasado e correu como nunca para vestir-se e seguir para a fábrica. Nem percebeu que a esposa estava ausente assim como os filhos. Tinham ido ao mercado, a feira de todos os sábados, para comer pastel e tomar garapa, comprar frutas e verduras frescas, como a família inteira fazia todas as semanas e que desde a chegada dos novos donos da fábrica deixara de contar com a participação do pai.

Desmazelado como estava, camisa fora de prumo, meia azul e preta a demonstrar sua noite mal dormida e o despertar acelerado, Getúlio saiu em desabalada correria para a fábrica. Como pensou estar atrasado, resolveu ir a pé mesmo, já que o carro não estava na garagem, estranhou o movimento mais calmo e tranquilo pois pensava ser ainda dia de semana, corrido, nervoso...

Atravessou a linha do trem passando por cima das cancelas e ignorando o apito da locomotiva. A fábrica estava logo ali e já podia vislumbrar o supervisor a olhá-lo com ar de quem desaprova tal comportamento e falta de comprometimento. Escapou por pouco do trem que trazia matérias-primas para a indústria local. Continuou como se fosse um bêbado desorientado, trançando as pernas, sem saber se sonhava ou se realmente estava ali... Quando chegou a recepção de seu trabalho foi informado pelo seu Joaquim que era sábado e que não havia expediente em seu setor.

Quando deu conta de sua trapalhada, Getúlio bateu em retirada, aliviado por não estar contrariando os ditames dos novos patrões e tentando rir um pouco de si mesmo. Como estava desligado ou no mundo da lua como dizem alguns, deu dois passos na rua e não percebeu que um daqueles carrões importados de seus chefes dobrava a esquina em alta velocidade... Foi atingido em cheio, jogado a considerável distância, perdeu a consciência e nem pôde perceber que havia sido atropelado pelos ponteiros do relógio...

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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