Entrevista na íntegra sobre o clássico "O Mágico de Oz"

Reproduzo a seguir a entrevista que concedi, na íntegra, para a jornalista Melina Pockrandt, da revista Ler & Cia, do grupo de Livrarias Curitiba, sobre o clássico filme "O Mágico de Óz", para a edição da publicação lançada no bimestre Julho/Agosto de 2011.


1) Do ponto de vista cinematográfico, como o filme “O Mágico de Oz” marcou a história do cinema?

JL - Há vários pontos a destacar quanto a este clássico, como por exemplo o fato de ser o filme que lançou, de fato, Judy Garland ao estrelado, seus efeitos especiais, suas cores vibrantes (e a transição do preto e branco para o colorido quando a casa de Dorothy é levada pelo furacão, saindo de Kansas e chegando ao reino mágico de Oz), a própria proposição de uma fantasia num momento de filmes dramáticos, comédias populares ou policiais noir... Penso que foi marcante em todos estes aspectos e acabou, de certa forma, se tornando um precursor poderoso de toda uma legião de filmes que viriam a ser posteriormente produzidos dentro deste gênero fantástico e com um olhar tão especial para os públicos mais novos.

2) É um filme bastante dramático com vilões marcantes e até mesmo um enredo “forte” (Dorothy precisa matar uma bruxa para conseguir voltar para casa). Como esse filme pode contribuir para a formação das crianças?

JL - Você destacou que o filme é forte e creio que esta é a palavra-chave para descrever a presença no imaginário coletivo de crianças de todas as épocas, ou seja, o fato de que Dorothy se revela muito forte, capaz, corajosa, impetuosa... Ainda menina, com todos os traços possíveis e imagináveis desta meninice apresentados em sua doce figura de garota do interior (suas roupas, seu jeito de falar, o cabelo), Dorothy é levada para um mundo que nem imaginava existir, defronta-se com seres totalmente diferentes daqueles com os quais convivia - bons ou maus, é obrigada a entender esta nova realidade ao mesmo tempo em que busca uma solução para o seu problema e também o de seus novos amigos... Talvez Frank Baum, o escritor do livro, fosse mesmo um grande visionário e já estivesse percebendo como seriam as crianças de tantos anos depois e, no filme, esta imagem acabou ficando mais clara para todos nós, não é mesmo?

3) Quais são as mensagens principais que o filme traz?

JL - Traz mensagens como solidariedade, como aquela demonstrada por Dorothy em relação ao Leão, o Espantalho e o Homem de Lata; Demonstra a necessidade de iniciativa por parte das pessoas; Estimula a coragem diante dos problemas e dificuldades; Incita as pessoas a saírem e conhecerem o mundo ao seu redor; Apresenta a dualidade que existe no mundo, com a bondade a qual se contrapõe muitas vezes a maldade; Ressalta a necessidade da criatividade, nas entrelinhas, pela própria imaginação do escritor e dos realizadores do filme... Há muitas mensagens explícitas e implícitas em "O Mágico de Oz", por isso ele é imortal, um clássico verdadeiro.

4) Hoje vivemos em um processo de tornar livros e filmes infantis politicamente correto ao extremos, excluindo manifestações negativas de personagens como vilões e bruxas. Isso pode ser prejudicial às crianças?

JL - Tenho certeza que sim. A Ditadura do Politicamente Correto é o título de um artigo que escrevi. Ressalto que é impossível uma vida sem intempéries, dificuldades, problemas, erros e enfrentamentos em paralelo a todas as coisas belas e maravilhosas que temos pela frente. A aprendizagem se efetiva justamente porque perdemos e vencemos. Temos que nos reerguer, recomeçar, sacodir a poeira e dar a volta por cima. Se maquiarmos todas as situações não estaremos realmente preparando as novas gerações para o mundo. Dorothy se defronta com bruxas terríveis e se decepciona com um mágico que é uma farsa, se fizermos as analogias, as bruxas não estão ao longo do nosso caminho e os falsos mágicos também? Promessas não cumpridas, sonhos não realizados irão acontecer, infelizmente, mas se escondermos isso de nossas crianças, como elas irão reagir quando não tiverem mais por onde escapar?

5) Como você acha que as crianças hoje recebem o filme “O Mágico de Oz” e outros filmes infantis antigos?

JL - As reações ainda são, na maioria dos casos, de encantamento com "O Mágico de Oz". É certo que, por conta da profusão de novos efeitos especiais, especialmente os computadorizados, há críticas quanto a estes quesitos neste filme e em outros infantis dos anos 1950, 1960 e 1970. No entanto, qualquer queixa ou crítica se dissipa frente a história fantástica trazida por esta produção.

6) Não sei se você já soube, mas está sendo programada uma refilmagem, mas uma versão mais adulta – como aconteceu com Alice no País das Maravilhas. O que pode se esperar dessa nova versão?

JL - Fiquei um pouco decepcionado com "Alice no País das Maravilhas", creio que o texto e a qualidade da história ficaram em segundo plano, ofuscados pelos efeitos especiais. Espero que não aconteça o mesmo. Será difícil encontrar uma nova Judy Garland e um olhar mais adulto não irá acabar desviando o filme de sua ideia tão original, que mirava as crianças e atingia a todos? São perguntas que me faço diante desta refilmagem...

7) Como você avalia esse tipo de releitura de clássicos do cinema?

JL - Creio que é um desafio. Recriar um clássico é uma tarefa que até o presente momento não trouxe para qualquer produtor e diretor a láurea de reconhecimento. Seu trabalho é produzir um novo filme a partir daquilo que alguém já havia pensado e realizado de forma espetacular, com reconhecimento de público e crítica. O espaço que se abre diante destes profissionais é o da comparação imediata entre sua produção e aquela na qual se inspirou, sempre tendendo o novo público ao qual se direciona e que conhece o filme anterior, a tomar partido do clássico...

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