Equipes extraordinárias


A maioria de nós, um uma ou outra ocasião, já participou de uma excelente “equipe”, um grupo de pessoas que funcionavam juntas de uma forma extraordinária – que confiavam umas nas outras, que complementavam seus pontos fortes e compensavam suas limitações, que tinham um objetivo comum maior do que os objetivos individuais e que geravam resultados extraordinários. Conheci várias pessoas que experimentaram esse tipo de trabalho em equipe – nos esportes, no teatro ou nos negócios. Muitos dizem que passaram grande parte de suas vidas tentando reviver essa experiência. Elas participaram de uma organização que aprende. A equipe que se tornou excelente não começou excelente – aprendeu a produzir resultados extraordinários. (SENGE, Peter. A Quinta Disciplina: Arte e prática da organização que aprende. 23ª ed. São Paulo: Best Seller, 2008)


Tive o privilégio de participar de uma equipe extraordinária como a que descreve Peter Senge. Professores de qualidade indiscutível, devotados a educação, cientes de seu brilho e potencial, capazes de se doar em favor do grupo e do resultado em prol dos alunos. Confiávamos todos uns nos outros sem que para isso precisássemos a todo o tempo reiterar ou reforçar que era assim ou que estava sendo assim. Todos muito compromissados mas, ao mesmo tempo, capazes de viver da forma mais natural e espontânea possível cada dia, semana, mês e ano daquele tempo em que estivemos juntos.

Não havia espaço para disputas individuais. Cada qual tinha brilho próprio, mas o conjunto das estrelas que estavam naquele pedaço de céu é que dava para o negro da noite a intensidade de luz que a todos alegrava e dava esperanças. Enquanto alguns eram mais sóbrios e discretos, outros mais cheios de vida e intensos, a todos não faltava a disposição, o empenho, a vontade de vencer e o sentido de unidade.

Vitórias pessoais eram celebradas coletivamente. Toda esta unidade era corroborada, sentida, vivenciada e igualmente compartilhada com os nossos gestores. Seu compromisso com a educação e com os alunos, com a comunidade atendida e conosco era evidente. Até mesmo quando era necessária alguma conversa, orientação ou mesmo cobrança, vigia entre todos do grupo a compreensão da necessidade de tais ações e a maturidade para lidar com eventuais críticas que surgissem.

Trabalhamos durante alguns anos e pudemos sentir que as vitórias cotidianas acabavam se tornando triunfos dos alunos e, deste modo, realização daquilo a que todos nós nos propusemos enquanto educadores naquela escola, ou seja, a de formar para o mundo, para a vida, para o trabalho, para as relações com a natureza e a sociedade. Queríamos que soubessem de forma consistente os conteúdos por nós ensinados para os desafios mais imediatos que teriam pela frente, mas ao mesmo tempo olhávamos para cada ser humano, pessoa única, cidadão em formação que se encontrava diante de nós. Trabalhávamos para que fossem éticos, participativos, politizados, interessados nas questões sociais, curiosos quanto a ciência, amantes da cultura, sequiosos por novas leituras do mundo...

A proposta de trabalho era clara para todos e o que era proposto e trazido para os alunos repercutia igualmente entre todos nós. Se queríamos cidadãos, integrados ao mundo, estudiosos, participativos e políticos, afeitos as questões sociais, igualmente tínhamos que agir dessa forma. Sem perder o jogo de corpo, o bom humor, a descontração jamais. Sempre de um modo que, como disse, me parecia muito natural. Qualquer ranço de ciúme ou de vaidade exagerada, se em algum momento existiu, passou despercebido no grupo.

Além do domínio dos conteúdos e dos saberes pedagógicos específicos que nos permitiam atuar de forma consistente e segura em sala de aula, havia ainda mais... A preocupação com os alunos, com suas questões, acompanhando seu crescimento, suas dúvidas, seus problemas e ainda vibrando com suas conquistas e evolução pessoal. 

Quando penso naquela equipe, em todos os profissionais com os quais tive o prazer de compartilhar espaço e que por conta disso tiveram sucessos profissionais indiscutíveis e valorização a partir de propostas das melhores escolas da região, sinto orgulho.

Buscamos isso o tempo todo e o que fazemos por isso? Como atingir esta maturidade, este equilíbrio? De que modo cada um de nós pode colaborar para que verdadeiras equipes se estabeleçam e sejam vitoriosas em seus propósitos e ações?

Penso que o primeiro passo é aquele do diálogo, da compreensão de nossas potencialidades e, dentro disso, do que podemos oferecer para o grupo, da ciência de nossas limitações e do que precisamos aprender, de como podemos crescer... Tudo isso considerando ainda o outro, o próximo, suas particularidades, riquezas e igualmente dificuldades... Somos seres em construção e precisamos do outro, daquele que é próximo, que nos complementa e enriquece com suas participações, ações, pensamentos...

Quando participo de um novo grupo me apresento quanto as credenciais mas, ao mesmo tempo, deixo todos cientes de que tenho limitações e, também, do quanto gostaria de aprender com cada um dos integrantes da equipe a qual me integro. Estou disponível para ajudar no que puder, mas gostaria também de ser ajudado. Quero que as pessoas se sintam a vontade para compartilhar e, igualmente, desejo dividir o que aprendi ou mesmo minhas dúvidas e dificuldades. Queria que isso sempre fosse possível e natural, sem impedimentos ou barreiras que por vezes criamos dentro de nós mesmos... Não é sonho, é possível, já tive este privilégio e quero tê-lo tantas outras vezes...

Obs. Se por vezes não compreender minhas palavras, ações e atitudes, não tenha jamais receio de me procurar, de trocar ideias, de compartilhar suas dúvidas... Penso que em equipes temos que ter esta confiança, disponibilidade e acolhimento como elementos basilares para o sucesso.

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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