O Educador Democrático e o Universo "I"


O educador democrático não pode negar-se o dever de, na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão. (FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996).

Li em artigos recentes publicados na internet e nos jornais que o desinteresse pela política entre os jovens é cada vez maior. Não querem participar. Com isso nos dão um recado claro e consistente, não concordam e por isso preferem se abster. Igualmente sinalizam que, como tônica do mundo em que vivemos, é preferível focar nos interesses pessoais, específicos de cada um, em seus próprios universos. O coletivo não nos compete como pessoas que podem (e deveriam) atuar politicamente.

Há vários fatores que certamente contribuem para isso. A corrupção e a sensação de impunidade em relação aos políticos que cometem atos ilícitos é uma destas questões de grande monta a afastar as novas gerações da política.

A sensação de que "uma andorinha não faz verão", de que os honestos são jogados para escanteio, ou seja, engolidos pelo sistema a ponto de não conseguir realizar efetivamente as mudanças desejadas, as transformações pensadas e as proposições sonhadas é também presente e marcante.

O jogo político, cada vez mais embrutecido, marcado por disputas ferrenhas pelo poder pensando esta instância como fonte de enriquecimento, engrandecimento e autoridade sobre o povo e não como alternativa de trabalho em prol e com o apoio deste mesmo povo causa também asco e desconfiança em pessoas que atuam eticamente, embasados em valores trazidos da família ou trabalhados nas escolas.

Agora, ainda que tudo isso pese nesta ausência cada vez maior do jovem no cenário político, atuando em prol do benefício público, é certo que a afirmação de Paulo Freire apresentada no início desta reflexão salta aos olhos. A criticidade por ele pensada como responsabilidade do educador democrático não está tão presente como outrora no horizonte das escolas.

Há uma pressa e uma premência por resultados de ordem prática, de acordo com as necessidades do mercado globalizado e competitivo, que enfatizam o trabalho educacional focado em conteúdos esvaziados de significância política e social. A competição exige e, com isso, é preciso trabalhar competências e habilidades que permitam a sobrevivência na selva estabelecida lá fora e, de preferência, dar ferramentas que levem ao sucesso.

Ser crítico somente no âmbito imediato das necessidades empresariais é valioso. Ser crítico no que tange ao interesse público é, por sua vez, desnecessário e constitui perda de tempo. Não lhe interessa o que pode acontecer com o outro. Preocupe-se apenas com o que lhe diz respeito. 

Pode parecer que, em muitos casos, isso é apenas o resultado da formação familiar e do foco dado aos filhos por estes progenitores, a estimular o egoísmo ou o egocentrismo de suas crias. Não é, o movimento é muito maior e ocorre nas engrenagens sociais sem que nem ao menos sejamos capazes de perceber. Está na web, na TV, nos jornais, nas revistas e em todas as mídias, diante de nossos olhos, despreparados ou cansados demais para se dar conta. 

O universo "I" (do inglês, traduzido para o português como o pronome pessoal "eu") se estabeleceu até mesmo na grife de produtos. Não há espaço para o "We" (nós) como a princípio se preconizava na Constituição norte-americana e que se apregoa em cartas magnas de tantas nações, inclusive a nossa. George Washington e Thomas Jefferson foram substituídos por Steve Jobs e Bill Gates no coração e mente dos americanos e do mundo inteiro...

Mas sem a criticidade nem ao menos conseguimos nos dar conta disso... Nos rendemos, somos (ou estamos?) submissos a vontade e ao ritmo voraz destas engrenagens virtuais e reais que nos rodeiam... Como virar a mesa? O que fazer? Você tem dúvidas? Eu também e gostaria de compartilhar para que pudéssemos juntos compor respostas sensatas, plausíveis, práticas e interessantes para todos no sentido da reconstrução dessa criticidade, politização, consciência coletiva e trabalho em prol do interesse público. Participe suas ideias!

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

  1. Acredito que as escolas teriam que trabalhar política em alguma área.Claro que em história se discute a antiga política, mas devíamos pensar em coisas atuais.
    Temos que discutir e refletir sobre as atitudes e que quase tudo que fazemos, sem querer são atos políticos.
    Esse trabalho teria que iniciar nas séries iniciais.

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