Ensino Forte...


A expressão "ensino forte" tem sido utilizada de forma regular para divulgar o trabalho educacional realizado por algumas escolas ou redes de ensino. É preciso refletir a respeito das palavras e de seu significado para que realmente o que significam e o que trazem como informação subliminar fique evidenciado. A princípio o exame da expressão tem o propósito claro de denominar como muito qualificada a forma como se desenvolvem as atividades educacionais realizadas dentro de uma unidade escolar.

Há, desde o princípio, aparentemente, uma redundância nesta afirmação. Em teoria o ensino deveria ser forte sempre como, inclusive, preconizado na LDB, a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional, em vigor desde 1996. Não poderia ser exclusividade de nenhuma escola e, sim, de todas as redes existentes e atuantes no território brasileiro, no segmento público e também no privado.

É claro que, infelizmente, há uma distância considerável entre aquilo que prevê a lei e a realidade de nossas escolas. No segmento público há lacunas em praticamente todos os quesitos, da infra-estrutura aos materiais de apoio, dos salários a formação de educadores, da carga horária a quantidade de alunos por sala de aula, entre tantos tópicos, poderíamos enumerar diversas questões sérias a serem resolvidas, ainda pendentes.

Por isso mesmo não é possível associar a ideia de "ensino forte" a maioria das escolas que atuam no Brasil. Os resultados dos exames nacionais e internacionais são, do mesmo modo, elementos que comprovam nossa defasagem. Enquanto nações como a Finlândia e a Coréia do Sul, que apresentavam na década de 1970 um nível de educação equiparável ao brasileiro, ocupam as primeiras posições dos rankings internacionais em matemática, línguas e ciências neste século XXI, o Brasil continua entre os últimos colocados, apresentando rendimento superior a "potências" como Indonésia, Panamá, Peru, Qatar e Albânia...

O uso da expressão por algumas escolas e redes de ensino, por isso mesmo, apropria-se da ideia como forma de ilustrar a diferença favorável a elas no tocante a qualidade do ensino oferecido e pautando-se em resultados obtidos em exames nacionais como o ENEM e os vestibulares das principais universidades brasileiras.

Em se comparando o que conseguem e o que a maioria das escolas têm apresentado como resultado, suas ações parecem saltar aos olhos. Mas esta comparação não é válida se aquilo que está sendo avaliado é tão díspar quanto ao que oferecem. Não dá para colocar nos pratos da balança um bem alimentado e reforçado cidadão e na outra um esquálido ser esfomeado. A pesagem vai tender obviamente para o sujeito que se alimenta de forma regular todos os dias, não é mesmo?

O uso da expressão "ensino forte" pode também ser utilizado na disputa mercadológica da educação como forma de destacar o trabalho não em relação as escolas que apresentam tantas dificuldades, mas aos competidores reais... Ao associar uma escola a esta ideia o que se quer dizer é que numa correlação de forças com os demais empreendimentos do gênero os meus "músculos" são maiores, ou seja, que ofereço melhores condições gerais para que a educação de qualidade se efetive.

E isto é realmente fato? Depende do olhar criterioso de quem busca estes serviços. Cada escola presente neste disputado mercado privado educacional tem qualidades e defeitos. É preciso verificar a metodologia e a filosofia que norteiam cada uma delas, averiguar a composição do corpo docente, o que se oferece em termos de recursos pedagógicos, as instalações e a infra-estrutura, os programas de apoio ao trabalho em sala de aula, as relações que se estabelecem entre a escola e o mundo, o atendimento ao aluno por parte de profissionais de apoio, as atividades extra-curriculares, se há aulas de reforço, como a escola trabalha artes e educação física, o acervo da biblioteca...

O "ensino forte" muitas vezes é associado apenas a resultados como aprovações em vestibulares, que realmente constituem um indicativo a ser também considerado, mas que não pode ser o único. Questões como acolhimento, disciplina, leitura, utilização pedagógica das tecnologias, ações sociais empreendidas a partir da escola, programas em que os alunos entram em contato com ciência e cultura, projetos de pesquisa, entre outros, não podem ser desprezados.

O aluno tem que ser formado com qualidade quanto aos critérios acadêmicos, esta é a demanda maior para qualquer escola. Se as condições oferecidas para tal objetivo são notáveis quanto aos resultados obtidos ao longo da história recente da escola, não tenha dúvidas de que ela oferece um ensino forte. 

Mas há, também, fatores extra-campo, digamos assim, que precisam ser considerados. O aluno tem que preparar-se para a vida em sociedade, entendendo-se como cidadão, eleitor, trabalhador, pai ou mãe, munícipe... Isso demanda conhecimentos que a escola igualmente oferece, com maior ou menor ênfase.

As questões mais ligadas ao que é objetivo e imediato no mundo real por vezes saltam aos olhos dos pais na busca por um "ensino forte" e a preparação para a vida, num sentido mais amplo, fica em segundo plano. Neste sentido, o equilíbrio emocional é também parte daquilo que as escolas trabalham. Está nas entrelinhas, nos bastidores, na relação entre alunos e professores, na forma como as questões do dia a dia são abordadas, na correção de rumo quando se cometem pequenos erros e é preciso a intervenção dos educadores...

"Ensino Forte" acontece também se, além de disciplina e aulas diferenciadas, laboratórios e salas de informática, quadras e bibliotecas, belos prédios e resultados destacados em grandes exames, professores tecnicamente impecáveis e tecnologia de ponta, forem dadas aos alunos condições para que se sintam bem, para que a escola seja para eles sinônimo de felicidade e realização. E a demanda de cada aluno, mesmo que por vezes irmãos, é diferenciada, ou seja, o que pode funcionar bem para um, pode não ser tão bom para outro. Saber quem é o seu filho e quais são suas prioridades, preferências, qualidades e dificuldades também ajuda muito na escolha de um escola que tenha ensino forte para ele...

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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