Permita-se viver...


Conheço inúmeras pessoas que morrem lentamente. Penso até que para a morte não lhes falta nada, somente o velório e o enterro. São pessoas que reclamam constantemente de tudo que lhes acontece durante a vida. Diga-se de passagem, que a vida, para essas pessoas, é um pesado fardo que lhes foi concedido sem que se pudesse perguntar a elas se realmente desejavam isso...

São pessoas que não se arriscam a tomar um banho de chuva de vez em quando. Que não ousam sair de casa sem um guarda-chuva ou uma capa a protegê-los. Não querem se arriscar e perceber que aqueles pingos gelados, caindo aos milhares dos céus, também são uma grande dádiva que nos é dada por Deus.

Mudanças lhes causam arrepios. Não acreditam que irão se arrepender de não ter tentado mudar, mesmo as pequenas coisas de suas vidas. Envelheceram muito rapidamente e não ousam colocar o nariz para fora da porta de suas casas. Escondem-se em suas modernas cavernas imaginando-se protegidos do mundo. Esquecem-se que é no contato com o mundo que realmente crescemos, aprendemos, nos machucamos, nos maravilhamos, choramos ou damos risadas sonoras e gostosas...

Falta-lhes, como nos dizem os poetas, a paixão. O fogo não lhes arde no coração e não os impulsiona a fazer as loucuras que todos temos que fazer algum dia em nossas vidas. São pessoas que nunca deixarão para trás seus cotidianos para andar na praia, sentir a brisa marinha, deliciar-se com a água a lhes molhar os pés...

O mar, para pessoas assim, é uma beleza somente a partir da TV ou da internet. A mesmas mídias que os escravizam e que muitos pensam lhes fazer livres. Não viajam para conhecer novos lugares e pessoas, sentir sabores e odores diferenciados, entregar-se a realidades e contextos completamente diversos daquilo que possuem.

Não viajam nem mesmo através das letras e da imaginação de fantásticos escritores, cronistas e poetas, como Neruda, Drummond, Cora Coralina, Machado, Lobato, Cecília Meirelles...

Morrem lentamente (ou já estão literalmente mortos) porque nem ao menos parecem se amar. Quem se ama se entrega para a vida e para o mundo de braços abertos. Quer conhecer, conquistar, bradar alto dos mais altos picos de montanhas, nadar entre os peixes, brincar sempre como criança, beijar com paixão o amor de sua vida como se fosse a primeira vez em cada nova oportunidade...

Não se restrinja a somente respirar. Abra os olhos. Encha os pulmões. Sinta o calor emitido pelo sol. Explore o mundo e deixe que o mesmo o seduza e o conquiste. Viva cada minuto como se realmente fosse único...

João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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