Ano Novo, Vida Nova?
Por que essa atitude refratária a mudanças? Simplesmente pelo medo que se tem do processo de reeducação! As pessoas adultas gastam infinidades de horas para se habituar com polegadas e milhas, com os vinte e oito dias de fevereiro, com letras que não pronunciam, em night e debt, por exemplo, com exercícios de datilografia e sabe Deus mais o quê. Introduzir algo completamente inédito implica recomeçar tudo de novo, voltar a estaca zero da ignorância e correr o velho risco, tão conhecido de possíveis fracassos. As crianças enfrentariam as modificações, sem problemas - nem perceberiam, aliás, que estavam passando por elas - mas ninguém lhes dá oportunidade... [Isaac Asimov em seu texto "Os Robôs, os computadores e o medo"].
O Novo causa no ser humano reações dúbias. Tanto pode despertá-lo do marasmo ou tirá-lo da zona de conforto quanto pode amedrontá-lo e fazer com que se encolha ainda mais no canto onde estiver vivendo. Depois que é superada a sensação de novo e torna-se parte do cotidiano é que se atingem situações intermediárias nessa relação. Isso vale para tudo na vida, da passagem etária e fisiológica que vivemos quando transitamos da infância para a adolescência ou desta para a idade adulta, passando até mesmo por mudanças de endereço, emprego e estado conjugal e atingindo as revoluções maiores que acontecem ao nosso redor na política, sociedade, cultura, tecnologia e economia.
Quando os computadores pessoais foram propostos na metade dos anos 1970 por sujeitos como Bill Gates, Steve Jobs e Steve Wosniak a reação inicial foi, de início, de indignação, risos e até mesmo repulsa por parte de executivos das maiores empresas de tecnologia daquela época. Não acreditavam que teríamos computadores espalhados pela casa de milhões de pessoas nos Estados Unidos e em todo o mundo como acontece hoje e nem desconfiavam que estas mesmas pessoas estariam conectadas em rede dialogando, trocando, comprando, vendendo... Parecia devaneio de um grupo de jovens mal saídos da adolescência ou em adolescência tardia, inebriados por filmes de ficção científica ou por literatura do gênero...
A aceitação de novos modelos familiares, nos quais os cônjuges se separam e formam novas famílias, ou mais adiante, quando casais homossexuais lutam por seus direitos para que sejam reconhecidos como união estável... Etapas já vencidas de mudanças de modelos conjugais tradicionais para realidades cada vez mais presentes diante de nossos olhos e que, certamente, não irão retroceder aos padrões dos anos 1950, como desejam as mais conservadoras e tradicionalistas vogas em todo o mundo. Igualmente despertaram lutas, rancor, ressentimentos, dores e dissabores estas novidades - do mesmo modo como a integração das minorias as nações tem provocado há décadas, ou melhor, há séculos...
Pensar na forma como as pessoas se vestem, no tipo de músicas que escutam, nos programas que assistem na televisão, na forma como se comunicam, nas opções políticas que têm, nos alimentos que consomem ou no modo como trabalham só nos mostra que a vida muda, as vezes de forma muito acelerada, outras nem tanto, pelo contrário, bastante lentamente, mas em qualquer destas circunstâncias há o medo do novo, o receio de que não dê certo, a estabilidade daquilo que já existe e que parece, para a maioria, o melhor caminho...
Quando passamos de um ano para o outro, é comum dizer: Ano novo, vida nova! Mas, até que ponto isso realmente acontece, mudamos de fato ou apenas dizemos isso da boca para fora. Quantas vezes você, realmente, fez com que o novo ano fosse diferente em sua vida?
Me lembro bem de um caso notável de mudança vivido em minha cidade natal, Caçapava, no Vale do Paraíba, estado de São Paulo. Casal bem estabelecido, ela atuando como gerente em banco estatal, portanto concursada e estável em sua posição profissional e bem remunerada, seu marido atuando numa grande empresa da região em cargo executivo e igualmente bem posicionado, um casal de filhos adolescentes, casa própria, conforto material e respeito na comunidade. Um dia decidiram que a vida ia muito bem, mas que lhes faltava alguma coisa...
Queriam descobrir o mundo, viajar, sair de sua zona de conforto, desafiar os mares, conhecer povos e culturas das quais só tinham conhecimento pela TV, internet, jornais e revistas... Esperaram terminar o ano letivo, licenciaram-se ou demitiram-se de seus empregos (não sei ao certo!), venderam alguns de seus bens, compraram um veleiro (e antes disso já tinham conhecimentos náuticos, é claro) e foram dar a volta ao mundo... Para eles todos, pais e filhos, foi realmente uma grande virada de ano, não foi?
Não estou dizendo com isso que devamos fazer o mesmo... Não é preciso sair pelos sete mares para ter um autêntico ano novo (apesar de que esta é uma alternativa muito bacana!)... É possível fazer isso de outros modos. Como? Penso que o primeiro passo é pensar a respeito da sua vida, como ela está, o que lhe falta, que sonhos ficaram ao longo do caminho, aonde gostaria de chegar...
Passamos, por exemplo, muito tempo em nosso trabalho e nos mantemos por lá ainda que não estejamos felizes, apenas pelo fato das garantias que temos. Trabalhei por 16 anos numa escola lecionando para o ensino fundamental e médio, outros 8 anos como editor de um portal de educação na internet, 6 anos numa faculdade dando aulas para o curso de gastronomia, 4 anos numa universidade local dando aulas na área de humanas... Todas estas experiências foram ótimas e sou muito grato por ter vivido cada uma delas, aprendi, cresci, amadureci e fui constituindo minha experiência pessoal e profissional, mas em algum ponto do caminho senti a necessidade de tentar coisas novas, de experimentar e crescer ainda mais e as portas a se abrirem diante de mim... Não tive dúvidas e fui em frente...
Se não fosse assim não teria conhecido tantas pessoas, vivido experiências diferentes, viajado para algumas localidades, trocado ideias, aprendido e ensinado... Antigamente as pessoas refutavam esta ideia. Marinheiros, por exemplo, foram por muito tempo desdenhados socialmente por viverem de porto em porto, sem fincar raízes em terra firme... Viajaram, conheceram o mundo, fizeram amizades, tem muitas e muitas histórias para contar...
O mundo de hoje, globalizado, oferece muito mais oportunidades do que imaginamos. Temos pessoas viajando para os quatro cantos do mundo, a trabalho, enviadas por empresas, em busca de novos negócios e, com isso, acabam se tornando de fato, cidadãos do mundo.
Outra importante mudança pode ser feita em seus relacionamentos, ou seja, não deixe esfriar seu romance, caso já tenha achado o amor de sua vida e, se isso ainda não aconteceu, mãos a obra, nunca é tarde para encontrar a outra metade da laranja ou a tampa da sua panela, como dizem os jargões populares. Invista seu tempo e sentimentos na pessoa que ama, dê flores, convide para sair, tenha uma vida mais intensa tanto em casa quanto fora dela e semeie o melhor de você e de seu par. Com seus pais ou na relação com os filhos, o que está bom e o que está ruim? Já pensou nisso? Pratique mais o companheirismo, o diálogo, a participação, o carinho e saiba ouvir... O importante é perceber que a vida de algum modo melhorou no trabalho ou nos relacionamentos!
Ano novo pode ser mudança de endereço, deixando para trás aquela casa ou apartamento em que você já não se sente confortável... Pode igualmente representar mudança de cidade, por motivos profissionais ou pessoais... Um curso novo, voltar a estudar, aprender aquilo que não teve oportunidade antes e que sempre desejou aprender... Também significa arriscar-se em práticas e ações que não são usuais, um esporte radical, aprender a usar o computador e a internet, fazer aulas de culinária... Ler novos autores e escutar outro tipo de som, assim como visitar mostras, exposições e museus também são caminhos que sendo novos podem fazer sua vida muito mais interessante...
Não ter medo de mudar é essencial. Disposição para sair do sofá, mudar de emprego, tornar a relação mais quente e especial, comprar um animal de estimação, aprender uma língua estrangeira ou ir viajar no Brasil ou no exterior (acampando, hospedando-se em albergues, ficando em hotéis simples ou sofisticados, de acordo com seu bolso) é que irão fazer com que realmente aconteça o que tantos desejam, ou seja, que o Ano Novo seja de Vida Nova!
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras


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