A aula de futebol do Barcelona: O individual a serviço do coletivo...


No show de bola ou aula de futebol visto na vitória do Barcelona sobre o Santos repousam várias lições para o futebol e também para a vida, a saber:

- A regra que tem prevalecido em times profissionais de boleiros, regidos por técnicos regiamente pagos, o talento está acima do coletivo quando, na realidade, o coletivo é que devia se servir das qualidades individuais de seus jogadores, inclusive dos grandes craques. Quando se reúnem os jogadores há, por certo, a consciência daqueles que podem decidir por seu inegável faro de gol ou qualidades técnicas individuais, os chamados craques, mas sem o carregador de piano, o marcador incansável, o lateral que vai até a linha de fundo e cruza várias vezes até acertar a cabeça do centroavante ou ainda o garçom a distribuir belos passes que colocam os atacantes na cara do goleiro (sem falar nestes jogadores, a defender o arco sagrado), a fera do time pode fazer e desfazer seus dribles e lançamentos, chutes e desarmes ou até gols maravilhosos mas não concretizará as vitórias maiores... O grande mérito do Barcelona é compreender que Messi é genial, sem dúvida um dos maiores de todos os tempos (arrisco-me a pensar nele acima de Maradona, o que para alguns pode parecer sacrilégio, faltando a ele "apenas" ganhar uma Copa do Mundo - e que não seja a próxima, em terras brasileiras!), que Xavi e Iniesta são brilhantes armadores a se multiplicar pelos quatro cantos do gramado, que seus zagueiros se impõem pela força e qualidade técnica, laterais hábeis e velozes... Enfim, do goleiro ao ponta-esquerda (se é que podemos usar esta nomenclatura tradicional), todos são qualificados, mas há alguns que estão no topo do mundo, caso do argentino camisa 10 do Barça, ainda assim compreende-se (e também Messi assim entende, ao que parece e fica muito claro na medida em que o jogo acontece) que a lógica dos mosqueteiros de Dumas é que deve prevalecer, ou seja: "um por todos e todos por um". Diga-se de passagem que tal escrita precisa igualmente prevalecer em qualquer ação humana, seja em escolas, hospitais, indústrias, na política...

- O futebol, como a vida deve ser jogado de forma dinâmica porém simples... O Barcelona não joga tentando reinventar a roda. Guardiola, o treinador desta máquina (com alma) de jogar futebol do século XXI, se espelha naquilo que foi realizado por equipes brilhantes do passado, como o próprio Santos, na época de Pelé, a seleção da Holanda em 1974, liderada por Cruyff, no célebre Carrossel Holandês, também conhecido como Laranja Mecânica, o Brasil de 1970, novamente capitaneado por Pelé e as feras Rivellino, Gérson, Tostão e Jairzinho (entre outros) e, mais perto no tempo, a Seleção Brasileira de 1982, do técnico Telê Santana, de futebol vistoso e marcante, com craques como Sócrates, Zico, Júnior e Falcão (derrotada mas reconhecida como um dos melhores times de todos os tempos). Aprender com os grandes exemplos do passado é uma das melhores qualidades de uma equipe e, certamente só fazem aumentar o respeito, a admiração e as conquistas de Guardiola e do Barcelona.

- Bola no pé é outra lição marcante deste Barcelona. O jogo é deles, contra o Santos, por exemplo, média final de 71% de posse de bola. Erros de passes? Pouquíssimos... Nada de chutões para a frente, nem do goleiro Valdez, bola de pé em pé, em passes, tabelas e triangulações rápidas e próximas, sempre com alguém por perto se oferecendo para receber a pelota do companheiro e, de preferência, mais de um jogador para ter opções de passe e saída de bola. Equipe, equipe e equipe. Momentos de brilho individual acontecem, como nas arrancadas de Messi, mas são fruto de momentos em que isso é possibilitado pela abertura de espaços e brechas surgidos das trocas de bola rápidas e letais do time catalão.

- O time abre vantagem de 3 gols somente no primeiro tempo e resolve pisar no freio no segundo? Não com o Barcelona! O futebol-arte está de volta, são 90 minutos de jogo e vemos todos até o fim tentando o gol quantas vezes for possível. O melhor jogador do Santos nesta partida finalíssima do Mundial de Clubes não foi Neymar, nem Ganso, foi o goleiro Rafael, que evitou um placar mais elástico e a trave, que segurou 3 oportunidades do time espanhol... Bola para a frente, jogar com seriedade, respeitando o adversário, mas o objetivo do jogo deve ser o espetáculo e a vitória e não ganhar apenas, o jogo de resultados, a taça pela taça... Gols não são mero detalhe, fazem a festa e dão vida a este espetáculo maravilhoso que pode ser o futebol.

- Organização tática, aliada a garra e esmero dos atletas, condução e maestria da equipe técnica devem ser respaldados por administração eficiente e correta destes patrimônios da humanidade que são as grandes equipes de futebol e, neste quesito, os espanhóis do Barcelona são irrepreensíveis, não se fala de uma das grandes equipes futebolísticas do mundo, mas da grande equipe, do clube de maior receita, de sua escolinha de formação de talentos, do espírito coletivo impregnado aos meninos já nas escolinhas... Tudo isso é administração eficaz, inteligente e que acontece para o agora e para o futuro... Vai ser difícil chegar a Barcelona no Brasil se não mudarem as mentalidades dos dirigentes...

- Filosofia parece uma palavra distante do universo hoje e, em particular do mundo do futebol, mas o Barcelona (e também a seleção brasileira de vôlei, há anos a melhor do planeta nas mãos de Bernardinho), trabalha pautada em valores e referências que ordenam sua prática esportiva de modo exemplar, único e, sem dúvida alguma, vencedor. No caso dos catalães, a formação dos meninos que irão jogar hoje ou que serão os craques do amanhã acontece de modo a dar-lhes a noção de que o coletivo deve se servir do individual e não o contrário. Desde os menores até os craques consagrados prevalece a lógica de jogo em que o domínio da bola, a troca de passes, a velocidade, os atletas sempre se oferecendo para receber bola, o não dar chutões e a busca constante do gol são a todo o tempo treinados, mentalizados e corporificados, como uma verdadeira filosofia...

Obs. Não há times invencíveis, nem mesmo este Barcelona fantástico que está resgatando o futebol-arte (ou a seleção brasileira de vôlei de Bernardinho), mas mesmo quando perdem, estas equipes caem de pé, com o peito estufado, com consciência e moral, sem sacrificar seus valores e ações. Vi o Barcelona perder para a Inter de Milão, do treinador Mourinho, num grande jogo pela final da Eurocopa, pelos méritos do adversário, mas em momento algum abdicou de ser Barcelona, de jogar para a frente, de tentar ter o domínio da partida... Esbarrou numa outra grande equipe, como o Brasil de Telê em 1982 ao ser derrotado pela Itália de Paolo Rossi ou o Carrossel Holandês de Rinus Michels ao perder a final da Copa de 1974 para a Alemanha de Beckenbauer...

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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