Natal de Luz


O presépio iluminado no centro daquele Shopping Center lotado era lindo. Com figuras que se moviam, dava a impressão de estar novamente acontecendo para os transeuntes que estavam diante da cena que se realizara há mais de 2 mil anos atrás. Crianças se empurravam para ver, adultos tiravam fotos, famílias inteiras estavam ali para conferir. Carregados de sacolas de compras, com presentes e mais presentes para todos, estavam diante daquela que é a representação maior do Natal.

Nos corredores daquele e de tantos outros centros de compras, nas movimentadas ruas de comércio popular, como registrado pelas câmeras das redes de televisão, além dos milhares de pessoas que por ali se acotovelavam em busca de ofertas e produtos, também circulavam pessoas vestidas de Papai Noel e podiam ser vistas muitas árvores coloridas, cheias de bolas vermelhas, amarelas e azuis a dar o tom da festa.

Programas especiais de TV traziam cantigas de natal, receitas típicas, sugestões de guloseimas para a sobremesa, celebridades a mostrar como suas casas estavam lindas para as festividades. Tudo lembrava a maior festa cristã do mundo, a ostentação e o brilho encantavam a todos...

Enquanto isso, num canto qualquer de uma grande cidade, na penumbra - com medo, frio e fome - um casal de retirantes vindos do interior, sem eira nem beira, se esconde e busca um abrigo onde consigam se recolher...

As luzes, parcas, mostram que a jovem está grávida e prestes a dar a luz... Seu marido, um humilde trabalhador rural, iludido pela promessa de trabalho na metrópole, resolveu arriscar tudo e deixou para trás o pequeno pedaço de terra em que plantava milho e mandioca em troca de uma remuneração melhor... Chegaram ao local de trabalho e lá foram informados que as vagas já haviam sido preenchidas...

Com pouco dinheiro no bolso não tinham como voltar para casa. Como era Natal, sentaram-se nas ruas e pediram auxílio, estenderam a mão, esmolaram algumas moedas, conseguiram ajuda de poucas pessoas já que a maioria olhava apenas para as grandes e iluminadas vitrines cheias de presentes e mesas fartas a reproduzir as ceias de Natal...

O que conseguiram permitiu-lhes comer alguma coisa e tentar chegar num hospital próximo, que lhes fechou as portas por suas vestes humildes e evidente impossibilidade de pagar (e o Juramento de Hipócrates nessa hora?). Pediram ajuda para policiais que andavam pelas ruas e estes indicaram albergues ou ruas onde poderiam encontrar auxílio médico público. Como o movimento nas imediações era muito grande, não conseguiam dar a devida atenção pois tinham que vigiar as lojas e evitar furtos e assaltos que ocorriam em grande quantidade nessa época do ano.

Desesperado, o marido pensou até em tentar roubar alguém ou alguma loja, mas tinha coração bom, era pobre mas honesto, humilde mas íntegro. Ainda acreditava na caridade, na bondade das pessoas, e por isso pedia, com lágrimas nos olhos, que alguém lhes ajudasse pois o parto de seu filho estava prestes a acontecer... A indiferença reinava. Os poucos que lhes direcionavam algumas palavras pediam desculpas por não ter ou não saber o que fazer, como ajudar...

Preocupado com a fina garoa que cobria a metrópole neste dia 24 de dezembro, o homem de mãos calejadas entrou naquele beco, acomodou alguns pedaços de madeira de caixas onde estiveram embalados produtos vendidos nas lojas e com papelão improvisou uma choupana... Ao seu redor apenas cachorros sarnentos e gatos baldios, escutavam-se também barulhos de ratos e insetos que provavelmente por ali se escondiam, em buracos como aquele em que estes pobres seres humanos igualmente tentavam se proteger...

Sem muitas esperanças, o homem imaginava fazer como parteiras que vira trabalhando na pobre região rural de onde viera para trazer seu filho ao mundo. Chorava, acuado, com fome e receio de errar, de não conseguir fazer com que o rebento visse as luzes desta vida. Suas esperanças, em meio a tanta festa e comemorações, com fogos já pipocando no alto da grande cidade e o estouro de champanhes vindo das janelas dos apartamentos da região, haviam desaparecido... Onde estava o Deus que todos celebravam? E o menino Jesus, a Virgem Maria... Haviam esquecido este pai e mãe em desespero?

Foi quando, de repente, algumas luzes surgiram e atrás delas, vieram pessoas a socorrer a mãe e o pai, exaustos, famintos e necessitados de atendimento médico... Uma criança que percebera aquela família humilde, preocupada, acionou os pais, uma jovem professora e um médico ligado a causas sociais que por ali trafegavam rumo a ceia com seus familiares... Imediatamente o casal ligou para entidades assistenciais com as quais trabalhavam e pediram uma ambulância, informando o beco onde se encontrava a futura mamãe...

Assistida pela equipe de um hospital público, a mãe deu a luz a um lindo menino, saudável mas um pouco magro, o dia 25 de dezembro ainda estava em suas primeiras horas quando isso aconteceu, e o pai imediatamente resolveu chamar o menino, por conta desse novo milagre de Natal, de Jesus...

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

Postagens mais visitadas