Você e a tecnologia: Para repensar esta relação...


Durante os anos que passei como editor de um portal de educação costumava dizer para meus colegas responsáveis pelo funcionamento, atualização e design de nossa página, todos eles não apenas profissionais da área tecnológica, mas também fascinados por ela, que em algum momento teria que puxá-los pela perna de dentro das telas de seus computadores tanto era o movimento de "entrada" que faziam em relação as ferramentas com as quais trabalhavam.

Figura de linguagem, o "mergulho" ou "entrada" tinha um custo, e não me referia apenas as horas dispendidas ali, diante do computador, plugado na internet ou das consequências da inatividade física, que sacrifica os músculos, a coluna, as pernas e tudo o mais.

Havia (e há) uma perda maior que se refere a autonomia, aos contatos humanos não intermediados pela tecnologia e a própria capacidade de pensar de forma profunda e refletida sobre o que acontece ao nosso redor. Estamos no mundo e não estamos, imersos em um universo infinito de informações que não conseguimos processar, devorados pelas chamadas que vem da tela ou dos aparatos móveis inteligentes (os smartphones cada vez mais onipresentes) em redes que não se desligam um minuto sequer e que não nos deixam desligar também.

O sistema nos devora? As tecnologias e a pressa que se impõem são irreversíveis? O trabalho e as contas estão aí e temos que pagá-las e tudo se justifica. Se assim não o fizermos seremos devorados e transformados no "não-ser", ou seja, naqueles que não fazem parte do mundo, que estão desconectados, que vagam e vagabundeiam de algum modo. Temos que ser operacionais, úteis e disponíveis o tempo todo. Tudo o mais é supérfluo e abrir mão é um preço baixo mediante as recompensas advindas da vida contemporânea, globalizada e cada vez mais plugada.

Pare e pense. Quem é você? O que quer da vida? Estas perguntas essenciais propostas por filósofos e atualmente discutidas em terapias que visam nos recuperar do stress da modernidade opressora tem que ser feitas todo o tempo por cada um de nós. E nesse ínterim, ao olharmos para as telas, termos a condição de percebê-las não como opressoras ou vilãs dessa história, somente como ferramentas que estão aqui para que possamos realizar nosso trabalho e não o inverso, nós como instrumentos que realizam o trabalho destas tecnologias. São apenas instrumentais, a vida flui também por elas, mas muito mais e além delas há o parceiro que se ama, o filho que pede atenção, o cachorro que se oferece para um passeio, o amigo que necessita de seu apoio e, entre tantos, também você!

Não digo que devemos desligar o mundo virtual e voltar ao que éramos, não creio que esta opção esteja sendo discutida ou pensada como alternativa, nem por mim nem por ninguém. É preciso, no entanto, que cada um seja senhor de seu dia, de suas horas, de suas palavras e, sendo assim, capaz de compor seus passos, pensar e viver suas relações, viver a vida como ela deve ser vivida, ou seja, de forma intensa e plena.

Tenho refletido, falado e também produzido textos sobre isso há algum tempo e percebo que há, hoje, uma maior disposição para repensar a forma como nos relacionamos com a tecnologia, a velocidade, a globalização, a comida que mal digerimos, as pessoas que nos são caras mas as quais damos tão pouco de nossa presença e tempo...

Olhe para os lados. Veja o sol. Sinta a brisa. Perceba as pessoas que passam por você nas ruas. Articule-se e estenda a mão. Dirija suas palavras a quem for. Não se abstenha de viver mesmo o que você tem pela frente e que isso não se restrinja a tela do computador, a internet e aos amigos que virtualmente atinge, mas principalmente ao que está fora de todas estas ferramentas, que, afinal de contas, é o que tudo isso é...

Por João Luís de Almeida Machado

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