Bananas atiradas contra Neymar: O preconceito ainda em campo


Bananas foram atiradas em Neymar em partida do Santos pela Libertadores da América. O jogo aconteceu na Bolívia, país em que a maioria da população tem ascendência mestiça. Além de bananas também jogaram pedras e laranjas. Todas agressões covardes de pessoas que se escondem no meio da multidão e que acabam atentando contra seu time, suas origens, seu próprio país e, acima de tudo, contra a dignidade humana. A discriminação contida na banana é tão ou até mais ofensiva que a violência impetrada com tal ato. E vai contra tudo que o esporte, seja o futebol ou qualquer outro, traz para as pessoas.

O esporte celebra a disputa mas há regras, espera-se civilidade, disciplina e respeito pelos adversários, que são apenas oponentes no campo de jogo e não combatentes enfrentados numa frente de batalha, numa guerra.

Ações de discriminação e preconceito contra atletas brasileiros, argentinos, uruguaios, paraguaios, colombianos e latinos em geral que atuam na Europa são inaceitáveis e deveriam acarretar sanções pesadas por parte dos órgãos esportivos responsáveis pelas competições em que isso acontece para que não se repitam tais arbitrariedades. 

Ao acontecerem em estádios latino-americanos causam ainda maior espanto pois, como os brasileiros, também atletas de outras nações locais são vítimas de racismo em campos europeus e de outras partes do mundo por conta de suas características étnicas. Isso ocorre com mulatos, negros, indígenas, mestiços e mesmo com brancos, discriminados por serem nativos de países considerados mais pobres e atrasados. Se entre os próprios latinos não há respeito diante de ações atrozes como estas, o que esperar quanto ao que ocorre na Alemanha, França, Itália, Inglaterra ou Rússia, por exemplo?

Multar os clubes, proibir a entrada das torcidas em alguns jogos ou durante todo a disputa de um torneio, identificar estes vândalos que se dizem torcedores através de câmeras colocadas estrategicamente nos estádios, fazer com que tenham que ir a delegacias no horário dos jogos, banir equipes reincidentes em casos de violência ou até mesmo em situações de racismo praticadas por torcedores ou atletas contra adversários são algumas medidas já utilizadas nos principais campeonatos europeus.

Não constituem ainda regras ou padrões gerais aceitos e usados em todos os torneios ou países daquele continente, mas certamente levaram a melhorias conforme dados que vem da Inglaterra, nação onde grupos de hooligans, torcedores violentos que causavam grande tumulto em partidas locais ou em torneios continentais, foram praticamente banidos dos estádios.

Nenhuma espécie de violência é aceitável. A intolerância presente no racismo é uma das mais fortes e piores espécies de violência existentes. A cor da pele, os traços do rosto e outros fatores étnicos, assim como os culturais, não tornam nenhum ser humano melhor ou pior que seus semelhantes. A diversidade é um fator de riqueza formidável para a humanidade e ajuda a construir um mundo mais rico por conta das diferentes contribuições que cada povo, cada pessoa tem para dar.

Neymar é hoje um dos grandes artistas do esporte mais popular do mundo. As pedras, laranjas e, principalmente, as bananas atiradas contra ele foram um atentado contra o jovem jogador brasileiro e também contra todos os atletas que vão a campo para fazer com que este jogo e todos os demais tragam alegria ao povo. As bananas ofenderam e machucaram  Neymar, todo o time do Santos, os brasileiros em geral (mesmo os torcedores de outras agremiações, como é meu caso, já que sou corintiano) e todas as pessoas que neste mundo prezam a compreensão, a paz, o entendimento, a tolerância, a ética e o amor entre os homens.

Que tais situações não deflagrem atos de vingança ou façam com que mais violência seja a resposta. Que as punições ao clube e a torcida responsável por estas ações irresponsáveis e indignas aconteçam. A Confederação Sulamericana deve agir para evitar que uma partida de futebol seja tratada pelos torcedores como uma guerra a ser ganha a qualquer preço. No esporte, como na vida, deve prevalecer o fair play, entre os atletas e também na relação entre torcidas de diferentes equipes.

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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