Cortinas fechadas
Entro no "mercedes com motorista" antes das 6 da manhã e aos poucos outros passageiros vão se acomodando nas cadeiras para que possamos partir. O destino é São Paulo. O coletivo vai quase sempre lotado. Não sobram cadeiras vazias. Os ponteiros do relógio indicam que, apesar de todos estarem rumando para o trabalho, ainda não se completaram as horas necessárias de descanso e, por conta disso, a maioria dos passageiros segue com as cortinas fechadas.
Lá fora os quilômetros que separam o interior da capital paulista vão passando pelas janelas e poucos despertos se dão conta. A maioria dorme, esmagada pelo peso dos dias trabalhados e as viagens que se acumulam. E o pior é que nem há programa de milhagens. Para muitos daria para ganhar algumas voltas pelo mundo. Mas seria possível concretizar estas jornadas?
Dentro do ônibus, as luzes apagadas, os corpos cansados, o sono leve ou pesado e as cortinas fechadas, nada se vê, apenas se viaja, inerte, rumo ao trabalho.
Alguns poucos insones, entre os quais me incluo, tendo uma vez despertado para a vida que se abre diante de seus olhos, arriscam-se a deixar as cortinas abertas. Pequenas frestas ou escancaradas, dão vazão a um mundo de coisas que por ali passam. Paisagens, carros, pessoas, prédios, indústrias e até propriedades rurais. Aviões quando passamos perto do aeroporto. Helicópteros já a voar e noticiar como anda o trânsito na mais movimentada cidade da América Latina.
Há aqueles que param nas telinhas de seus celulares e mal desgrudam os olhos dali. Outros, mais sofisticados, quando acordados, já vão trabalhando em notebooks ou tablets. Quando não estou a olhar pela janela e ver o mundo lá fora e toda a sua riqueza e pobreza, complexidade e simplicidade, acomodo os olhos, amparados pelos óculos, nas páginas de algum livro e com ele também abro cortinas, em minha mente, imaginação, estudo, pesquisa, criação...
As cortinas fechadas simbolizam o que exatamente? Parei para pensar e me ocorreram diferentes respostas: o stress e a correria do cotidiano a nos consumir a energia vital? Uma metáfora para o nosso fechamento em nossos próprios universos e pequenos mundos? A escuridão que parece tomar conta de nossos tempos de vida a nos ocultar todo o resto enquanto labutamos por horas e horas? Ou será que é só devaneio da minha parte, talvez efeito da cortina aberta que me permite ver o que acontece ao meu redor ou aprender sobre o mundo nos livros que folheio e leio?
De qualquer modo, ainda que entendendo o cansaço e o desgaste das viagens e do trabalho, fico a me perguntar, e a vida como vai? As cortinas fechadas estão lhe permitindo viver seus sonhos para além do sono?
É preciso abrir as cortinas...
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras


Pois que se abram as cortinas da vida, para vida para sentir o viver na pele e poder saber o que Deus fez por nós, para nós.
ResponderExcluirAssim manteremos a qualidade de vida como realmente merecemos e precisamos.
Parabéns pelo artigo!