O dia em que fiquei feliz ao ouvir que não confiavam em mim!
Certa vez escutei de um de meus chefes a seguinte consideração a meu respeito: "Não confio em você!"
Tomei como elogio. Pode parecer estranho, mas é preciso entender a conversa a partir de pormenores que não aparecem nesta frase. Por exemplo, o complemento desta afirmação foi no sentido de esclarecer que esta desconfiança existia porque eu seria uma pessoa muito honesta, até um pouco cândido (ou ingênuo), de seu ponto de vista.
A afirmação se relacionava a necessidade profissional existente na época que se relacionava a atuação em negociações com poderosos manda-chuvas que poderiam (ou não) contratar serviços ou produtos que vendíamos. É preciso ter um jogo de corpo que realmente não tenho. É claro que é possível se adaptar e aprender, como em tudo na vida. Mas não sei se gostaria de jogar assim, dentro de regras que por vezes poderiam chocar-se com meus princípios e ética.
Creio que por isso considerei um elogio e, ao mesmo tempo, ali percebi que já me conheciam bem. Ficou claro, igualmente, que não iria muito além do que já conquistara naquele trabalho. Conquistas estas que derivavam do trabalho sério, responsável e comprometido com a educação que sempre fizera e que continuo a realizar.
Para algumas pessoas (entre as quais este meu chefe), eu era um idealista e, por isso, o embate entre os interesses pessoais com os do mercado e da empresa não me permitiriam fazer mais, como se esperava de mim.
Confesso. Realmente sou idealista, cândido, honesto, ético e tudo o mais que foi pensado sobre mim e que me fizeram escutar a afirmação que inicia esta reflexão. Felizmente sou assim!
Pode parecer ruim, que não sou capaz de atuar dentro de contextos em que faz-se necessário abdicar de princípios e adequar-se a máxima de Maquiavel, tão popularmente conhecida e infelizmente mal interpretada, segundo a qual "os fins justificam os meios". Mas, e se no caminho esquecermos quais são os fins e ficarmos somente com os benefícios obtidos no meio da jornada... Como é que fica?
São tantos os casos de homens e mulheres que pareciam tão lícitos, éticos, zelosos de valores e articuladores de projetos dignos que acabaram se corrompendo, se vendendo, se entregando que prefiro me ater a minha ingenuidade, idealismo, filosofia de vida e agir de forma coerente entre o que penso e como faço as coisas acontecerem em meu dia a dia. Isso não quer dizer que despreze o fato de vivermos num mundo em que precisamos de recursos materiais e de dinheiro, como meio de troca para obtê-los. Por isso mesmo trabalho com afinco para chegar a vida confortável sonhada para mim e para os meus.
Ao ouvir aquelas palavras, no final das contas, fiquei até mesmo lisonjeado. Fossem mal entendidas e sairia cheio de rancor e mágoa daquela reunião. Mas não, ajudou-me a perceber que, afinal de contas, tenho conseguido escrever uma história pessoal honrada e de integridade. Não sou perfeito e tenho consciência disso, mas ao colocar minha cabeça no travesseiro quando vou me deitar, sinto que fui quem deveria ter sido ao longo de meus passos e que, por isso posso dormir tranquilo.
Por João Luís de Almeida Machado


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