A Páscoa além do chocolate


O chocolate é o imperador que reina soberano na Páscoa neste 3º milênio. Coelhos ou crianças fantasiadas como este animalzinho simpático estão nas telas da televisão, anúncios de jornais e revistas ou na internet a vender os sabores diferenciados que ainda vem acompanhados de brindes imperdíveis. Muitas vezes os pequenos optam pelos brinquedos em detrimento do chocolate, como também o fazem com os lanches de fast-food, em que os brindes superam o interesse pelos sanduíches.

O sentido maior da Páscoa, associado a ideia da ressurreição, da vitória da vida sobre a morte e, certamente, da capacidade de perdoar e entender estão sempre em segundo plano, senão pior... As lições associadas a esta data celebrada mundialmente pela cristandade vão muito além da pregação religiosa, suplantam as questões mais imediatas associadas ao catolicismo e tornam-se, na realidade, referências universais que devem (ou ao menos deveriam) orientar ações e caminhos a serem seguidos pela humanidade como um todo.

A mercantilização das datas comemorativas, sejam elas religiosas ou leigas, associadas a personagens e princípios, fatos e acontecimentos de vulto e de caráter nacional ou mundial não permite as pessoas que entendam, de fato, quais os significados e sentidos que carregam estas datas.

A Páscoa, retratada no judaísmo como a fuga dos hebreus do Egito, onde viviam como escravos e que, no cristianismo remonta a crucificação de Jesus e sua ressurreição, para um mundo como aquele em que vivemos, no qual as pessoas estão mais distantes e arredias, centradas num universo virtual e pouco afeitas ao relacionamento presencial ou então no qual grassam a corrupção, a violência, os interesses individuais em detrimento das causas coletivas traz elementos essenciais para um melhor viver.

Se pensarmos, por exemplo, na fuga dos hebreus do Egito, liderados por Moisés, é possível resgatar valores fundamentais como solidariedade, dignidade, luta contra a opressão, liderança carismática e legítima e a própria concepção de fé pautada não apenas na esperança de dias melhores, mas na efetiva ação para que isso viesse a acontecer. Há, é claro, o líder que realiza sua ação e indica caminhos, mas a mobilização despertada depende da vontade de cada indivíduo envolvido realmente transpor barreiras e superar dificuldades. O cativeiro no Egito era um castigo, verdadeira maldição que fez com que os hebreus literalmente viessem a atravessar o Mar Vermelho, mas a jornada era penosa, cheia de dificuldades e realizá-la constituía superação a um desafio de grande monta.

Ao analisarmos a Páscoa do prisma cristão, percebemos além da ressurreição do Cristo, a força de seu exemplo, que castigado ao extremo, traído por Judas, abandonado por alguns de seus seguidores mais fiéis, ainda assim acredita na redenção humana e se propõe a pagar pelos erros dos mesmos. Há sacrifício, devoção, capacidade de doação e a experiência do amor legítimo e profundo. Há também o arrependimento, a coragem, o poder das palavras, a ética e os valores universais que estão a se constituir e que persistem até hoje.

Quando o chocolate, que não e o culpado de toda essa história, pelo contrário, divina delícia que nos foi legada pelos índios americanos, se sobrepõe aos elementos que deveria simbolizar ou celebrar, é sinal de que é preciso rever conceitos e práticas. Não estou dizendo que iremos parar de consumir os doces derivados do cacau, só não podemos sucumbir a mercantilização em detrimento dos sinais, símbolos, valores e ensinamentos que a história destas trajetórias magníficas nos trazem. 

A Páscoa é momento de famílias reunidas, em torno da mesa, em congraçamento e comunhão, elevando suas orações e permitindo-se celebrar os motivos reais que fazem desta data a mais importante para toda a cristandade. Se for com chocolate, melhor ainda, mas este elemento é somente uma parte ínfima de tudo aquilo que se celebra nesta data e não podemos nos esquecer disso!


Por João Luís de Almeida Machado

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