A abolição da escola



Reunidos num grande salão de convenções estavam representantes de todos os países. Já estavam discutindo esse assunto e deliberando sobre o tema há meses. Estes estudos, por sua vez, eram resultado de demandas que pareciam ser muito imediatas, a todo o momento requisitadas através da mídia, com cobranças insistentes de setores da sociedade. Não havia um real clamor popular por isso, tudo era muito segmentado, ainda assim os grupos que comandavam a pressão eram poderosos pois controlavam jornais, televisão, rádio e, principalmente, a web.

Nesta reunião da União Mundial das Nações Reunidas, o que se discutia era a abolição das escolas. E o projeto foi então encaminhado para votação. Entre as pouco mais de 200 nações que ali estavam representadas, cerca de 72% votaram a favor, 25% se posicionaram contra e 3% dos participantes ficaram, literalmente, em cima do muro e se abstiveram.

No dia seguinte os jornais do mundo inteiro estamparam em manchetes: "O fim da escola" ou então "Adeus salas de aula". Alguns, mais ligados aos interesses relativos a esta revolução, como chegou a ser anunciada na internet, diziam que chegava ao fim uma era de opressão educacional e cultural, com a palavra do professor, o texto em papel e o uso da letra cursiva caindo finalmente em desuso.


A partir de agora tudo seria através das plataformas virtuais. Os professores seriam realocados das escolas e salas de aula para o trabalho educacional a ser realizado em computadores, através da rede mundial que os interconectava.


Imaginem os benefícios, diziam os defensores destas mudanças:


- Teríamos todas as plataformas, recursos, mídias e produções humanas ao alcance de nossas mãos.
- As aulas seriam padronizadas e os professores estariam online para dar suporte e orientação sempre que necessário.
- Os materiais didáticos seriam inteligentes, plugados, multimidiáticos e, além disso, ecologicamente corretos pois não seria mais necessário cortar árvores para fabricar livros.
- Os alunos poderiam aprender dentro de seu próprio ritmo, necessidade e disponibilidade de tempo.
- A educação aconteceria em casa, no transporte coletivo, nas praças, em espaços culturais ou em qualquer lugar em que o aluno se sentisse mais a vontade.
- Professores e alunos não precisariam ficar migrando para as escolas, diminuiria-se o tempo perdido com deslocamentos e gastaria-se menos combustíveis, o que ocasionaria menor poluição do ar.


Estas eram algumas das ponderações a favor deste novo sistema educacional, sem escolas e salas de aula. Haveria um controle central a monitorar o trabalho dos professores e as matrículas e realizações dos alunos. Não se perderia nada do que fora conquistado antes e considerado válido, apenas se adaptaria tudo a uma nova instância em que a mobilidade seria a realidade da educação, associada ao conceito de respeito a individualidade do estudante e  proteção do meio-ambiente.


Ainda assim, com tantas vantagens aparentes, existiam os descontentes. Denunciavam que tudo era fruto do interesse dos governos e mantenedores de escolas privadas, dos desenvolvedores e responsáveis pelas redes virtuais que viam na educação um filão riquíssimo de possibilidades para seu crescimento econômico, gestado por financistas de olho nas bolsas de valores.


Educar a distância significava cortes significativos em custos trabalhistas (não seria necessário dar vale-alimentação ou passe para transporte dos profissionais, nem o café da hora do intervalo), além disso os custos de manutenção das escolas seriam zerados. Outro grande benefício seria que os imóveis onde ficavam as escolas poderiam ser vendidos o que significava rendimentos altos e lucros para os especuladores imobiliários.


Os rebeldes pró-escola, como começaram a ser chamados, diziam que, principalmente o que se perderia seria o contato humano, a possibilidade do encontro entre os alunos, a socialização necessária para todos eles e também a interação com os professores e demais profissionais das escolas, que agregavam ao ensino dos conteúdos a sua experiência maior de mundo, as suas vivências e, mesmo a emoção e o sentimento que estão envolvidos nas relações entre as pessoas.


Tudo isso, para os "revolucionários" desta nova ordem era secundário ou desnecessário. Nada que não pudesse ser resolvido em família ou em outros locais de convívio, como os shopping centers, as praças públicas, os clubes, os locais de trabalho... Fingiam não perceber que as novas gerações passavam a maior parte do seu tempo plugadas e que a abolição das escolas somente iria agravar o fato, gerando maior distanciamento entre as pessoas, pois nem ao menos a convivência típica do âmbito escolar continuariam tendo.


O computador, segundo seus defensores, além de tudo, dava foco aos estudantes e, ao mesmo tempo, permitia-lhes socializar por suas diversas alternativas de redes sociais. Podiam ainda, ao mesmo tempo em que se formavam, já integrar o sistema produtivo, tornando-se inicialmente trabalhadores cooperativos que fomentavam o crescimento da web com seus textos, vídeos, produções em áudio... A voz de todos ecoaria pelos quatro cantos do mundo via web e a partir da mais tenra idade!


A abolição da escola seria então, para todos, a libertação dos grilhões, segundo seus defensores, que os ligava a uma dinâmica exaustiva e improdutiva, comandada por seres humanos muitas vezes obsoletos e tendenciosos. Eliminariam-se riscos físicos relacionados a interface entre os próprios alunos e entre estes e seus professores.


O mundo seria mais seguro, próspero, focado e ecologicamente seguro. O que mais poderíamos querer? 


Passados alguns anos do estabelecimento deste sistema, quando as últimas escolas foram fechadas, o mundo havia mudado muito. As pessoas não mais circulavam pelas ruas, somente quando muito necessário. Tudo era feito via web. Havia um novo temor mundial, o de que a população, em decréscimo, pois os relacionamentos eram virtuais e não mais presenciais, viesse a se extinguir.


Todo mundo tinha milhares ou milhões de amigos na internet. As redes eram velocíssimas. E as pessoas processavam tudo em compasso com o que a tecnologia lhes permitia, ou seja, com espantosa rapidez. O processamento dos fluxos parecia ser comandado por cada um dos habitantes do planeta, mas no fundo mesmo, os cérebros eletrônicos criavam demandas e os humanos apenas respondiam ao que lhes era pedido.


O que se ensinava via web? Tudo o que fosse funcional. Não havia espaço para futilidades. O pensamento focado era o grande propósito desta rede de formação universal. Nem mesmo os regionalismos pareciam sobreviver. Os professores eram como autômatos a apertar botões e encaminhar textos ou recursos variados que conheciam de cabo a rabo, podendo mesmo recitar cada um deles, mas incapazes de fazer a crítica sobre eles, de reinventá-los ou de criar novas alternativas.


Os alunos não se entendiam mais como aprendizes, mas como seres autônomos (que verdadeiramente não eram), pois tudo o que precisavam estava logo ali, bastando apertar alguns botões para conseguir realizar seus projetos, atender as demandas de trabalho e, ao mesmo tempo, aprender o que a vida lhes cobrava. Desaprenderam vários sentidos da vida que pareciam fundamentais a seus pais e avós, como o convívio, a troca, o carinho, o amor, a solidariedade...


Quando as primeiras crises energéticas afetaram os países, fazendo com que os sistemas parassem de funcionar e, tendo em vista a integração de tudo, as pessoas não sabiam o que fazer. As paradas mais longas ocasionaram casos de morte até então nunca antes vistos ou percebidos. A desconexão fazia com muitas pessoas morressem logo que seus computadores e outras ferramentas paravam de funcionar.


Em alguns lugares as escolas ainda funcionavam como antes, de forma clandestina, em locais afastados. Nestes lugares os professores ainda davam aulas, trocavam ideias, participavam para seus alunos pensamentos e experiências que lhes pertenciam e que eram de toda a humanidade, desde as primeiras civilizações de que se tinha notícia. O caos e as panes que faziam com que pessoas morressem nas cidades fez com que alguns deles tivessem pela frente um enorme desafio: Recomeçar...


Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

Comentários

  1. O homem vive em meio a tanta evolução e ao mesmo tempo ele retorna aos seus princípios de ingorância substencial.Não me admiro se um dia chegar ao ponto de nada saber, nada fazer nem o porque da existia dele e como ele chegou ao ponto de do esquecimento pela sua própria vida.
    Só lamento algo dessa natureza,pois quando penso na época de escola que eu frequentava sinto saudades da fila no pátio pra cantar o hino nacional, de orar, das brincadeiras na hora do encontro matinal com as amigas.......as fofocas inocentes,as paqueras hora do recreio o qual muito esperado.
    Agora me pergunto será mesmo que a geração futura merece ser castigada de tal forma que não possa passar por essa fase tão abençoada?
    Onde erramos pra tal atitude radical?
    Fico aquí com minha simploria e paca vida estudantil a qual me orgulho.
    De qualquer forma gostei muito desse texto e ele é um alerta sem dúvida.
    Sucesso sempre!

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