Entrevista sobre a arte do Grafite nas Escolas concedida ao Jornal O Vale
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Exemplo de arte em Grafite, tematizado a partir de obras de Tarsila do Amaral,
desenvolvido na Escola Estadual Governador Mario Covas, cidade paulista de Monte Mor.
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Entrevista concedida ao repórter João Pedro Teles, do jornal "O Vale", de São José dos Campos e região, publicada no caderno Educação com o título "Grafite agora ajuda o ensino", em 13 de maio de 2012.
1 - Quais características do grafite como expressão artística fazem dele um objeto de estudo interessante para a sala de aula?
João Luís - O Grafite remonta, historicamente, as primeiras manifestações artísticas dos seres humanos, ou seja, as pinturas rupestres. Não utilizamos os mesmos materiais e técnicas, é claro, tudo e mais sofisticado, mas prevalece a ideia de um painel grande, de exposição para todas as pessoas que passem ao largo daquela parede ou muro e, por conta disso, é possível fazer esta aproximação. Historicamente já há esta conexão e, no aspecto artístico, as possibilidades são múltiplas, pois é possível fazer a releitura de obras de diferentes períodos, a produção contextualizada e focada em questões da atualidade regional ou mundial, a utilização de estilos próprios de artistas consagrados a partir da compreensão dos alunos e/ou ainda a composição de novas formas de manifestação e produção estética.
2 - No artigo do site Planeta Educação, você compara a expressão do grafite com obras de Diogo Rivera, Portinari e Michelangelo. Qual a relação entre o grafite com esses artistas?
JL - Todos eles compuseram produções em tela e também em grandes murais públicos que são visitados diariamente por milhares de pessoas, exatamente como o fazem os artistas do grafite, tanto os anônimos quanto os famosos, como os gêmeos Otávio e Gustavo Pandolfo, cujos trabalhos são reconhecidos no Brasil e no exterior. O grafite atingiu status de obra universal, com reconhecimento público e notoriedade hoje, mas tem em Rivera, Portinari, Michelângelo e outros grandes mestres, inclusive nas pinturas rupestres, uma nobre ancestralidade.
3 - O trabalho realizado com o grafite pode ser multidisciplinar? Como?
JL- Como mencionado anteriormente, o grafite pode se ligar a história e as atualidades, mas também é possível e desejável que se criem projetos ligados a geografia (física, humana, econômica), a geometria e mesmo as ciências e a matemática, não há limites. Neste sentido é preciso que seja realizado um planejamento que aproxime a produção em artes dos conteúdos e ideias que estão sendo trabalhados em outras disciplinas.
4 - Existe no grafite uma proximidade maior com a rotina do aluno, de que forma o professor pode usar isso a favor da aprendizagem?
JL - As conexões do aluno com o mundo precisam ser conhecidas, identificadas e decodificadas pelos professores para que entre eles criem-se conexões e maior proximidade. Qualquer projeto, seja com grafite, filmes, leitura ou tecnologias demanda esta aproximação do universo do aluno por parte do professor. Conhecer o grafite a partir de leituras, estudos e projetos desenvolvidos por outros professores e alunos é importante, mas deve-se sempre estar atento a experiência dos próprios alunos para ajudar a compor esta ação.
5 - Esses trabalhos com o grafite incluem também colocar a mão na massa ou os alunos se atém à analise das obras?
JL - Sem colocar a mão na massa é impensável realizar um projeto desta natureza. Seria como aprender a dirigir um carro somente indo as aulas na auto-escola e sem dirigir qualquer veículo ou aprender a jogar bola lendo um livro e não indo a campo para uma partida.
6 - De que forma você sugere que se trabalhe um preconceito que ainda existe em relação a essa expressão artística? Esse mesmo preconceito acaba limitando os trabalhos que envolvam grafite e educação?
JL - O preconceito só pode ser superado a partir do momento em que se perceba pelo trabalho em sala de aula a evolução, a técnica, os estudos necessários, a composição ao longo do tempo, ou seja, como um processo que envolve estudo, preparação, conhecimento e criatividade. Não dá para simplesmente pensar em projetos nessa área sem que os alunos recebam informações e sejam preparados para isso. Depois disso, suas produções terão fundamento, corpo, cores, entonações, temas e poderão ser melhor apreciadas e entendidas, o que certamente auxiliará na superação de preconceitos ainda existentes.
7 - Ainda sobre esse preconceito, qual a sua opinião sobre aqueles que ainda torcem o nariz para essa expressão artística? Você acha que esta e outras manifestações de arte marginal ainda enfrentam muita resistência na sala de aula?
JL - Sim, infelizmente ainda há preconceito. O problema maior reside justamente no fato de que muitas pessoas associam o grafite a pichação, ou seja, a arte elaborada e pensada a uma forma de violência ou violação do espaço alheio, sem permissão, agressiva e sem traços. Ao trabalhar na escola, com a possibilidade de expandir para o espaço da própria comunidade como uma ação artística e educacional, criando-se painéis belos e criativos assinados pelos estudantes de um bairro, a tendência é que se supere esta visão preconceituosa.
8 - Você poderia citar exemplos bem sucedidos do uso do grafite como ferramenta de ensino?
JL- Em São Paulo há várias iniciativas desta natureza sendo desenvolvidas por escolas públicas e particulares. O projeto Aprendiz na capital paulista tem incentivado produções em grafite em diferentes bairros.


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