Juiz ladrão...


A mãe do juiz é uma das mais amaldiçoadas pessoas da face da Terra independentemente da qualidade do trabalho realizado por seu filho. Raras são as ocasiões em que o juiz de um jogo de futebol consegue sair de campo sem que sua performance seja criticada por alguém. Sempre há alguém insatisfeito com o resultado do jogo a buscar no árbitro as razões de seu insucesso. 

Não que os homens de preto (ou de amarelo, rosa, laranja e outras cores utilizadas pelas federações de futebol nos dias de hoje) não mereçam muitas das críticas a eles dirigidas, não é isso. Há juízes que pecam pela incompetência técnica, por erros de interpretação ou ainda por problemas físicos (faltam-lhe pernas para acompanhar de perto as jogadas ou apresentam problemas na visão e não conseguem ver o que todo mundo viu, no estádio ou na televisão). Existem também aqueles que intencionalmente interferem no resultado, movidos por bolsas de apostas, propinas ou simplesmente porque assim o desejam (por rusgas e brigas com jogadores, treinadores ou dirigentes ou mesmo porque não simpatizam nem um pouco com algum time).

Mas, já parou e se perguntou porque alguém, em sã consciência decide ser juiz de futebol?

São constantemente criticados. Podem ser agredidos em campo. Sofrem perseguições de torcedores. A crônica esportiva está sempre destacando seus erros.

Podem passar uma partida inteira sem cometer um erro qualquer e, de repente, num segundo, por ter a visão encoberta, deixam de marcar um impedimento e tudo vai por água abaixo ou o contrário, enxergam demais e acabam por influir no resultado por perceberem uma infração dentro da área quando ninguém mais no mundo assim o percebe...

Sendo assim porque alguém nesta vida resolve ser juiz de futebol? E suas mães, em algum momento são consultadas? Já imaginou o que significa para a família de um árbitro abrir os jornais no dia seguinte e ver uma manchete estampada com a expressão "Juiz ladrão"?

Imagine uma criança pequena, filha de um juiz, começando a entender as coisas e de repente alguém lhe diz que o pai é ladrão... Começa então a chorar e a se perguntar se ele vai ser preso ou o que faz este menino ou menina?

De qualquer modo, a arbitragem no futebol é um mal necessário. Pense bem, sem os homens de preto e seus auxiliares (mais popularmente conhecidos como bandeirinhas), seria um festival de caneladas e sobressairiam os pernas de pau e não os craques, os artistas da bola. Mesmo com os juízes e auxiliares vemos estes grandes jogadores sofrendo com faltas grosseiras e jogadas viris desmedidas a lhes ceifar as pernas e todo o corpo. Imaginem então como seria sem eles.

Mas que o juiz ladrão é um personagem e tanto na mitologia do futebol, isso é igualmente fato. Quantas e quantas vezes você não saiu da frente da TV ou do estádio verdadeiramente louco da vida porque o apito amigo ajudou a equipe adversária. Cartões distribuídos apenas para os jogadores do seu time, expulsão programada, faltas na beira da grande área, bate-boca com o treinador e tantas outras ações fora de medida tomadas por ele a mostrar a você e ao mundo (percebidas pelos cronistas esportivos e comentadas nas rodas de amigo no final do domingo) que o sujeito estava com más intenções e influenciou no resultado do jogo.

Ainda assim não é possível entender porque alguém entra nessa roubada (sem trocadilhos!) de ser juiz, não é mesmo? Deve ser por causa dos holofotes, ou seja, de estar na mídia, nos jornais, mesmo que muitas vezes pelas piores razões do mundo... Outro motivo pensado por muitos relaciona-se aos valores pagos aos juízes de futebol profissional nos campeonatos principais do Brasil e do mundo. Isso só tem sentido para os abençoados (ou amaldiçoados) juízes que chegam as divisões principais do futebol profissional mundial. Pense nos pobre-coitados que apitam na 4ª divisão de um torneio municipal ou regional, que fama ou grana podem conseguir com isso?

Alguns pensam que isso lhes possibilita conhecer os atletas famosos (e os não tão famosos também). Há pessoas que acreditam que ser árbitro de futebol é ser masoquista... O sujeito gosta de sofrer e se expõe aos tormentos toda a vez que é escalado para apitar uma partida... 

O que penso sobre o fato? Creio que o sujeito se torna juiz porque gosta de futebol mas não sabe jogar direito e nem mesmo no gol se deu bem... Desse modo consegue estar no ambiente do jogo, seja em que divisão for, faz um saudável exercício, convive com os jogadores e, de quebra, ainda pode decidir o jogo...

Obs. Felizmente há bons juízes de futebol que atuam da forma mais cordata e correta possível e que, como qualquer outro profissional, podem cometer pequenas falhas em sua carreira, mas que conseguem no final das contas sair com saldo positivo quanto a acertos e erros. Ainda assim são criticados, vilipendiados e suas mães sofrem e padecem mais que qualquer outra na face da terra!

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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