O "Caviar" do Vale do Paraíba
Confesso que, apesar de valeparaibano de origem, tendo nascido em Caçapava, demorei algumas décadas para provar o que Monteiro Lobato chamou de "Caviar do Vale do Paraíba". Fui instado a provar, quase como uma provocação mesmo, da parte de alunos e familiares, quando lecionava história da gastronomia no Centro Universitário Senac, em Campos do Jordão. Como muitas pessoas, até realmente provar o prato, sentia uma certa repulsa a ideia de consumir um inseto...
Mas não foi nas instalações da universidade que fiz a prova deste acepipe tradicional de minha região natal. Fui experimentar mesmo é na casa da sogra, que de sogra mesmo não tem nada, é verdadeira mãe para todos lá de casa.
A temporada de caça a Içá, a formiga alada que como uma autêntica parente da tanajura tem uma bundinha saliente e rechonchuda a se destacar em sua anatomia, estava a pleno vapor. Meninos nas ruas da cidade ofereciam a matéria prima vendendo em latas, por peso ou por embalagem mesmo. Tendo adquirido uma porção boa, isso foi levado para casa onde deixaria de ser simplesmente uma formiga para se transformar na famosa Farofa de Içá. O hábito de consumir este inseto foi herdado dos índios que habitavam a região.
Farofa de Içá que além de Monteiro Lobato também já apareceu em trabalhos de Maurício de Sousa, que diga-se de passagem, já morou em Caçapava e por lá possui casa na roça. Seu personagem Chico Bento aparece em uma história em quadrinhos preparando esta iguaria, acompanhado de um amigo e supervisionado pela mãe. Tudo isso feito no fogão de lenha, para ficar ainda mais gostoso.
De qualquer forma, uma vez preparada a farofa, feita somente com a parte traseira da formiga, o que se tem é verdadeiro deleite. O prato é produzido de preferência em óleo pré-aquecido, no qual algumas linguiças calabresas são fritas em pequenas tiras, adicionando-se cebolas miúdas se assim for o gosto do freguês. Sempre é possível colocar cheiro verde e salsinha para dar um gostinho mais marcado, mas é opcional e vem somente depois que a linguiça já fritou e a ela se adicionou cebola e as içás.
Deixe fritar até chegar no ponto e adicione a farinha de mandioca, podendo ser a crua ou a torrada, de acordo com sua preferência.O óleo da linguiça deixa a farofa bem molhadinha e apetitosa. Quando perceber que tem aquela consistência tradicional, antes de ficar muito seca, desligue o fogo e sirva. A içá tem um textura e gosto, depois de feita a farofa, que me fez lembrar vagamente de amendoins, mas com um diferencial a favor deste prato típico, deste ingrediente tão exótico.
Junto com arroz fresco, feijão caudaloso, uma salada simples (com alface, tomates, cebolas e talvez palmito para dar um toque), um ovo frito e talvez um bife acebolado para acompanhar temos uma refeição completa, bem no jeito do caipira ou do tropeiro residentes na região. Uma delícia de prato, simples, singelo, mas que com a farofa de içá, fica divino. Vale conferir!
Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras



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