Considerações sobre o uso de tecnologias na educação


"A senhora não acha que tem sido gigantesca a contribuição das tecnologias interativas para a educação? Uma pesquisa divulgada no ano passado, na Inglaterra, derruba esta tese. Três quartos dos professores ingleses reclamam da crescente dificuldade de concentração dos alunos. Quase todos os pais entrevistados afirmaram que os filhos gastam o triplo do tempo na frente de uma tela em comparação com o que dedicam a um livro. Não concordo com os especialistas que sugerem distribuir tablets aos alunos. Isso não resolve. A única maneira de prender a atenção das crianças nos dias de hoje é ter professores inspiradores. A tecnologia é fundamental e excitante, mas, sozinha, não identifica nem desenvolve talentos." (O lado sombrio da tecnologia. Entrevista concedida por Susan Greenfield, neurocientista inglesa, a Revista Veja, ed. 2303, 09/01/13)

Algumas considerações se fazem necessárias em relação a afirmação da neurocientista inglesa quanto ao uso de tecnologias de informação e comunicação em educação, a saber:

1) As tecnologias compõem um rico recurso quando pensamos nas plataformas e na conjunção de forças estabelecidas desde o surgimento e aperfeiçoamento da internet. Ampliaram a capacidade de acesso a dados e informações e deram velocidade ao processo nunca antes conseguida pela humanidade. Sua adaptação ao contexto geral tem sido mais rápida em alguns segmentos e lenta em outros, como a educação. Não se trata simplesmente de incorporar tecnologias ao cotidiano de professores e alunos, disponibilizando recursos, medida já em curso e necessária. A questão é que tudo isso representa uma mudança evidente de cultura e paradigmas, que mexem com a prática pedagógica, alterando os processos de ensino e aprendizagem. Incorporar ao dia a dia da sala de aula a internet, os computadores e os tablets exige conhecimento das potencialidades destes recursos e o planejamento de ações que permitam sua utilização didática, dentro do contexto daquilo que está sendo utilizado, sem o descarte de outros recursos e certamente articulando estas novas ferramentas com a metodologia utilizada pela escola e pelos docentes.

2) Nesta transição que vivemos há a necessidade de pensar a relação com os equipamentos e tecnologias incorporados ao cotidiano para que estes não se tornem o centro das ações e atenções das pessoas. São recursos, máquinas que auxiliam os procedimentos humanos, incorporando velocidade e produtividade ao trabalho, estudo, acesso a informações... O mais importante são as pessoas, as relações que estabelecem com os outros, a interação que necessitam e devem estimular dentro de suas comunidades (no mundo real), o contato com o meio-ambiente natural e cultural constituído ao seu redor. Para as pessoas que nasceram antes da avalanche ou revolução tecnológica que estamos vivendo e que possuem experiências mais intensas fora do universo das telas talvez seja mais fácil equacionar a relação e usar de forma mais ponderada aquilo que está sendo concedido a elas com o advento das tecnologias de informação e comunicação. Ainda assim, conforme pude perceber por textos de Nicholas Carr, eminente pesquisador norte-americano na área de tecnologias, mesmo as mentes mais experientes tem dificuldades para administrar a relação "tempo x espaço x tecnologias" que está se impondo a todos. Imaginem então o que isso significa para as gerações digitais, de crianças, adolescentes e jovens que não viram o mundo sem celulares, notebooks, tablets e internet...

3) Neste sentido o papel das escolas, dos educadores e da família é primordial, pois são estes os agentes sociais que irão orientar e educar o olhar e a ação das novas gerações quanto ao uso ponderado das tecnologias. O problema é que mesmo estes adultos, maduros e responsáveis, estão no olho do furacão e precisam se adaptar, entender melhor os recursos, percebê-los como adendos a seu cotidiano e não como a espinha dorsal a indicar tudo o que devem fazer ou viver... Não é fácil lidar com isso e as pessoas, ainda num misto de admiração, encantamento e sedução quanto as tecnologias em constante atualização, perdem um pouco (ou muito!) o foco. 

4) Nas escolas, antes de inserir qualquer tecnologia é preciso conhecer os recursos: mapear, entender, perceber as funcionalidades, realizar as necessárias adaptações ao ambiente educacional, pensar e propor ações com cunho pedagógico, adaptar as necessidades das ações de ensino e aprendizagem. O que se vê, em muitos casos, é a rápida inserção das ferramentas, como mais recentemente os tablets, no cotidiano das escolas sem que os professores, por exemplo, tenham sido orientados para o uso e sem que tenham lhes dado oportunidade de preparar projetos e ações educativas relacionadas a estes meios e recursos. É preciso fazer a lição de casa, planejar para semear e colher. A pressa é a inimiga da perfeição e muitas vezes acaba, literalmente, "queimando" recursos pois as etapas a serem seguidas para sua incorporação ao cotidiano escolar não foram seguidas.

5) A adoção das tecnologias não representa, como chegam a pensar algumas pessoas, que os demais recursos serão aposentados ou descartados. Não estamos vivendo o ocaso dos livros, cadernos, lápis, canetas coloridas, colas, revistas, jornais, jogos pedagógicos e tantos outros recursos, pelo contrário, todos estes e muitas outras ferramentas usadas na educação permanecem e a elas se adicionam as tecnologias. As aulas não serão 100% tecnológicas, o fator humano é essencial e, neste caso, isso significa usar o que tivermos a mão e todas as experiências anteriores que se acumulam como arsenal pedagógico para a construção do conhecimento juntamente aos alunos. Não teremos, a não ser em casos muito específicos, como cursos de educação a distância em ambientes virtuais de aprendizagem (que devem, ainda assim, prever momentos presenciais), escolas sem professores. Como destacou a especialista, nada supera a presença de "professores inspiradores". Imaginem então se estes grandes mestres tiverem pleno conhecimento dos recursos todos que o cercam, inclusive das tecnologias, o que poderão fazer... 

Por João Luís de Almeida Machado

Comentários

Postagens mais visitadas