Vídeos educativos da Khan Academy já foram vistos 224 milhões de vezes no YouTube
"Tudo começou despretensiosamente em 2004, quando ele passou a ajudar, de Boston, uma prima com dificuldades em matemática que morava em New Orleans. A solução era utilizar a internet para enviar pequenos tutoriais de aritmética gravados com um software simples de captura de som e imagem. Enquanto escrevia com o mouse na tela do computador, Khan explicava os conceitos.
Dois anos depois Khan teve a ideia de publicar os vídeos em um canal do YouTube batizado de Khan Academy. O sucesso veio em pouco tempo: as aulas atraíram milhares de visitantes - e também de elogios. Em 2009, o norte-americano pediu demissão do emprego de analista de fundos de investimento para se dedicar exclusivamente à sua academia virtual.
Os assuntos se diversificaram e hoje, além de matemática, há aulas de ciências, economia e humanidades. A coleção de Khan tem mais de 3,8 mil vídeos, que já foram assistidos pelo menos 224 milhões de vezes só no canal oficial do YouTube." (Com tecnologia é possível ter ensino personalizado. Entrevista de Salman Khan ao Estado de São Paulo, publicada na edição de 13 de janeiro de 2013).
Os números são grandiosos. A plataforma é simples. Os resultados já são percebidos a partir de iniciativas utilizando os vídeos em escolas dos Estados Unidos. A Khan Academy criou mais que uma tendência, lançando um modelo que quer colocar a escola num outro rumo, através do qual o professor seja um tutor ou orientador privilegiado em sala de aula, invertendo a lógica que domina o cenário da educação mundial.
Por este modelo, os vídeos de Khan (e se pensarmos além, tendo em vista que há games, e-books, simulações, animações, infográficos, podcasts e tantos outros recursos) seriam o ponto de partida utilizado pelos alunos para que o estudo se iniciasse. Teríamos, neste sentido, uma inversão do processo, com o estabelecimento do modelo conhecido e apregoado por especialistas em tecnologia educacional chamado de sala de aula invertida.
O estímulo vem do recurso, da plataforma, seja um vídeo, uma simulação ou um game. O aluno é despertado para um tema de física, história ou artes por este material digital e tenta entender conceitos, ideias, formulas e teorias que fazem parte dos currículos educacionais. Neste processo busca apoio em outros canais virtuais indicados por seus professores e, em pequenos grupos, interagindo com os colegas de sala, esclarece as eventuais dúvidas, tendo sempre os docentes por perto a lhes orientar quanto ao que está sendo estudado.
Segundo Khan, o tempo hoje gasto pelos educadores para ministrar aulas expositivas seria substituído por esta atuação seletiva, de orientação, de relacionamento com os alunos e, com isso associado aos estímulos dos recursos virtuais, estaríamos modificando a estrutura vigente na educação há tanto tempo, trazendo real valor a incorporação dos recursos tecnológicos a sala de aula.
Não se desvaloriza o professor, muda-se seu papel, atribuindo-lhe um novo modo de atuar na sala de aula, sintonizado com as tecnologias e de constante interação com os alunos. Além disso, se estimula que os alunos troquem, intercambiem ideias, auxiliem uns aos outros, seja no próprio ambiente onde estão, seja através da rede mundial de computadores.
Trata-se de uma virada de jogo, de uma superação de paradigmas e do estabelecimento de uma nova cultura a vigorar na seara da educação. Significa sair do lugar comum e enfrentar a acomodação, superando a zona de conforto na qual a escola como a conhecemos se estabeleceu.
Há pontos a serem esclarecidos, como por exemplo, aqueles relacionados as questões técnicas, que num país como o Brasil, no qual a internet ainda é deficiente, precisam ser pensados: a banda para distribuir a informação em sala de aula é suficiente para todos os alunos? Que equipamentos utilizar: tablets ou netbooks? E se o aluno não trouxer seu equipamento para a aula? Como fazer com que todos os alunos tenham equipamentos? Quais os custos de tudo isso para uma rede pública ou para uma escola privada?
E se pensarmos além, o grande nó ou dificuldade, ou seja, preparar os professores para esta transformação. Isso passa pela revisão do cotidiano destes profissionais e também pela modificação dos currículos de formação dos futuros professores ainda nas faculdades e universidades.
O que fazer com os outros recursos que estão nas salas de aula? E as demais técnicas de ensino e metodologias utilizadas? Estamos falando do fim das aulas expositivas?
Há muitas questões que, apesar dos bons resultados obtidos por Salman Khan e sua Khan Academy (no Brasil o projeto está associado a Fundação Lemman, que traduz os vídeos e já iniciou ações em São Paulo em algumas escolas utilizando a proposta de Khan), precisam ser pensadas. A concepção de escola e seu cotidiano certamente necessitam de ferramentas e as tecnologias educacionais associadas a professores competentes e comprometidos é um caminho a ser seguido, mas é preciso planejamento e preparação, levando-se em consideração o que pode ser atingido tanto quanto as pedras no caminho...
Não se pode desprezar, esquecer ou abandonar o que já foi feito ou o que é utilizado nas salas de aula e se mostra efetivo. A empolgação e o encantamento com as tecnologias não podem nos fazer trocar os pés pelas mãos, é necessário critério na aplicação destes recursos para que as vitórias e conquistas conseguidas ao longo do caminho não sejam abandonadas sem que saibamos aonde iremos chegar com os novos meios. Incorporar as tecnologias é um caminho sem volta, mas é preciso critérios, planos de ação, estudos e, a partir de amostragens, saber exatamente o que podemos conseguir.
Por João Luís de Almeida Machado


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