O Google Glass chegou ao mercado: Não podemos perder o foco

Sergey Brin, um dos fundadores do Google, em apresentação do Google Glass.
Pela bagatela de 1,5 mil dólares você pode ser uma das pessoas que irão ter os primeiros óculos inteligentes criados pelo Google. Com eles é possível, por exemplo, tirar fotos e gravar em vídeo as imagens que estão diante de seus olhos, como por exemplo uma palestra ou seus filhos a brincar no jardim de sua casa. Informações sobre os arredores, dados sobre estabelecimentos comerciais, indicações de horários de metrô ou ônibus e buscas no próprio Google são outras possibilidades que estão a surgir com este novo recurso. Tudo acionado pela voz do usuário.

Inicialmente o produto está em pré-venda somente nos Estados Unidos e limitado as cidades de Nova Iorque, Los Angeles e San Francisco. Além disso o comprador ainda assume alguns compromissos relacionados a postagem de imagens e informações sobre o uso dos óculos do Google através das redes sociais da empresa.

Como qualquer produto diferenciado, novo e teoricamente revolucionário (como está desgastado o uso deste termo, já reparou?) o Google Glass causa especulações e mobiliza a curiosidade de milhões de pessoas em todo o mundo quanto as possibilidades e usos que possibilitará a seus compradores. 

É importante, no entanto, pensar como um recurso inovador como o Google Glass desloca o olhar do usuário ao fazer com que ao invés de permitir-lhe a fixação das imagens através de sua visão e em seu cérebro passe a preocupar-se no registro na web e em suas redes sociais.

Tenho esta impressão toda vez que vou a um evento, como por exemplo formaturas escolares, casamentos ou mesmo em viagens de turismo. Ao invés de aproveitar o momento e se relacionar com os presentes as pessoas ficam mais preocupadas em fotografar ou filmar para depois mostrarem o que viram e viveram (será?). E isso apenas com o smartphone, tablets, câmeras de vídeo ou fotográficas ou outros meios anteriores aos óculos.

O foco deixa de ser a experiência em si e se torna a ação de registro para compartilhamento sem que o usuário usufrua, equacione, pense, se emocione ou se relacione com o todo que o cerca. 

Assista a seguir o vídeo de demonstração do Google Glass para conhecer melhor esta tecnologia.

A questão não são os recursos em si. A ciência e suas tecnologias, trazidas pelas empresas em busca de mais lucros e de benfeitorias para seus consumidores cumprem a risca o papel social e econômico que lhes é inerente.

O uso dos recursos pelas pessoas, a experiência proporcionada, que tira do sujeito o foco e o desloca para o equipamento e as redes é que precisa ser repensada. Tirar fotos ou filmar a partir do comando de voz ou de um piscar de olhos (não vai demorar...) não é errado ou ruim. Se passamos a viver em função disso muito mais que das próprias experiências o que realmente nos resta após a vivência.

Pense, por exemplo, no sujeito que está escalando uma montanha e que usa uma tecnologia como o Google Glass. Ele precisa fotografar ou filmar ao mesmo tempo em que amarra as cordas, fixa os pinos nas pedras, sobe as montanhas, conversa com os outros aventureiros. Tudo bem, os registros lhe permitirão, depois, ver como foi tudo e isso é, certamente, muito legal e enriquecedor, mas e a vivência durante a subida? Será que ele não poderia ter aproveitado mais? Ou ainda, será que tendo este outro foco ele vai conseguir se preocupar com sua subida quanto a todas as precauções e cuidados necessários ou será que poderá filmar, ainda que acidentalmente, sua própria queda? 

É, precisamos pensar bem o uso das tecnologias, sejam as mais recentes como os óculos do Google ou ainda outras, já surgidas...

Obs. Leia mais sobre o assunto no texto "Os óculos do Google e a miopia digital".

Por João Luís de Almeida Machado

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