O Pontífice Negro
A fumaça branca começou a sair. O sinal que o mundo esperava após alguns dias de conclave finalmente fora emitido. Os cardeais tinham se decidido e o novo papa seria conhecido. A população e a imprensa se apinhavam no Vaticano. As redes de televisão, que durante todo o período da reunião de cardeais que decidiria quem substituiria o papa que renunciara a mais alta posição na hierarquia da igreja, finalmente poderiam transmitir ao vivo a notícia para todo o mundo.
Cogitaram-se vários nomes. As especulações foram tantas que até bolsas de apostas lucraram com isso. O novo papa seria europeu? Teríamos alguma surpresa, quem sabe com algum latino-americano atingindo a hierarquia máxima da Igreja Católica? Especulava-se que pela primeira vez na história o pontífice poderia ser africano ou asiático. Os estudiosos, no entanto, acreditavam que o conservadorismo dos votantes os levaria a escolher novamente um italiano.
A origem do papa, para muitos, não era um fator preponderante ou mesmo relevante para a escolha. Nos bastidores, mais que definir a geopolítica do novo papado, as decisões a serem tomadas poderiam significar que a Igreja tinha reais intenções de rever posturas, adotando linhas mais progressistas ou, então, escolher alguém que primasse pelo conservadorismo, tentando arrumar a casa, superando os problemas que se tornaram públicos a partir da renúncia do papa sem que, no entanto, isso revolucionasse a ação global dos católicos em todo o mundo.
O papa renunciante criara grande desconforto por sua postura, inédita nos tempos modernos, de abrir mão do poder e autoridade conferidos a quem ocupa a cadeira de Pedro, ou São Pedro, o fundador da igreja, a "pedra angular" fundante da instituição Igreja Católica no mundo. Anunciara a idade, o cansaço e a impossibilidade física para realizar a longa e penosa jornada de pastor maior pelos quatro cantos do mundo cristão como o fator que mais pesara em sua decisão.
Seus pronunciamentos nos dias que antecederam sua saída oficial, respeitada publicamente, tanto pelos religiosos quanto pela população, que entendera a fragilidade física do papa confrontada com as difíceis e extenuantes tarefas que o cargo lhe impunham diariamente, deram a entender que havia algo mais. Parecendo lembrar, ainda que de forma bastante sutil, nas entrelinhas, o Hamlet de Shakespeare a dizer que "há algo de podre no reino da Dinamarca".
Analisar as últimas falas do pontífice alemão que deixava o trono passou então a ser tarefa de teólogos, filólogos, pensadores e analistas das mais variadas espécies que, de algum modo, entendessem de religião, catolicismo e códigos ocultos. Casos de pedofilia que haviam estourado em algumas nações cristãs envolvendo religiosos foram "entendidos" como parte dos conflitos internos. Os embates entre os progressistas latinos ligados a Teologia da Libertação, de tendências esquerdistas, com os conservadores que esvaziavam as ações da Igreja Católica de qualquer caráter político, eram igualmente pesados como fatores que causaram a renúncia. Apego ao materialismo por parte de religiosos, vazamento de informações internas e secretas da cúpula da Igreja Católica (no que foi chamado de Vatileaks, em alusão ao Wikileaks) ou mesmo a não submissão as ordens do papa por parte de alguns de seus mais diretos colaboradores também foram analisadas como partes do quebra-cabeças que se estabelecera.
Tudo isso continuaria a ser debatido, com menor ênfase depois da saída de cena do papa, mas neste momento, o que importava era que o novo pontífice tinha sido eleito pelo conclave. E quem era ele é o que todos queriam saber, especialmente, ainda que isso não fosse tão importante, suas origens, ou seja, de que continente e país era oriundo.
O anúncio veio então a ser feito. Com toda a pompa e cerimônia, como deve ser nestas ocasiões, foi proclamado publicamente que o novo papa, escolhido pelo Colégio de Cardeais, era africano, proveniente de uma das maiores nações católicas daquele continente. O mundo teria então, pela primeira vez, um papa que não tinha nascido em uma nação européia e, igualmente de forma inédita, o primeiro pontífice negro da história.
Imediatamente buscaram-se informações sobre ele. Quem era. Quantos anos tinha. Suas preferências políticas. Sua história de vida. Sua trajetória no catolicismo. Que linhas a igreja passaria a ter a partir de agora. Tudo isso se pesquisou, mas nada, no que tange a mídia e a reação mundial teve tanto impacto quanto sua origem e a cor de sua pele, para o bem e para o mal. Sua missão pastoral seria então ainda mais desafiadora, teria que superar as desconfianças e, principalmente, o preconceito, ainda que velado, de tantas pessoas...
Então, acordei, sobressaltado, diante da televisão para ver se meu sonho pessoal, de superação e renovação da Igreja Católica, com a escolha inédita de um papa africano ou latino-americano, quem sabe até mesmo brasileiro, como eu, tivesse de fato acontecido e, para minha decepção, o conservadorismo triunfara outra vez, o substituto de Bento XVI, escolhido pelo Conclave, era novamente um italiano... Ainda assim, para o bem do cristianismo e do catolicismo, rezei por ele e por aqueles que o escolheram...
Por João Luís de Almeida Machado



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