Pais superprotetores e as consequências disso para a vida das crianças
1. Qual a importância da proteção dos pais no desenvolvimento da criança? Por que a criança não deve ficar totalmente "solta" no mundo?
JL – Há duas importantes situações a serem pensadas quanto ao assunto. A primeira refere-se ao fato de que a proteção, o acompanhamento ou o monitoramento da vida das crianças pelos pais tornou-se uma necessidade, em virtude do crescimento estatisticamente comprovado dos casos de violência em nosso país (e em várias partes do mundo). Ações comuns das crianças de antigamente, como, por exemplo, jogar bola, brincar de esconde-esconde, ir à casa de colegas que moram na vizinhança, entre outras, tornaram-se menos regulares, por conta do receio dos pais de que, no meio do caminho, possa acontecer alguma coisa, uma agressão, uma violência sexual, um sequestro... Ocorre também que, por conta da violência e do medo dos pais de exporem seus filhos a situações de risco, surge no cenário das famílias a superproteção e, com isso, a criação de redomas ou bolhas onde essas crianças ou adolescentes acabam sendo colocados. Com isso, são tolhidas oportunidades de vivenciar experiências que, até algum tempo atrás (20/30 anos), eram corriqueiras nas vidas dessas pessoas.
a) No entanto, como identificar que os pais já ultrapassaram os limites da proteção saudável e adentraram a superproteção?
JL – A superproteção torna-se uma realidade quando não são oferecidas às crianças e aos adolescentes chances reais de aventurar-se no mundo por contra própria. Quero dizer com isso que, para tudo (e me refiro aqui a tudo mesmo), há sempre algum acompanhamento dos pais. Seja para ir à escola, ao clube, ao shopping, ou mesmo em caso de férias e períodos mais prolongados de tempo, nos quais os pais, por insegurança total, impedem os filhos de fazerem programas nos quais eles (pais) não estejam incluídos. Como parte de uma vida saudável, é preciso que, em alguns momentos, seja concedida aos filhos a chance de vivenciarem essas experiências ou aventuras sem que o olhar e a presença dos pais por perto os intimidem ou mesmo os exponham a situações de ridicularização perante os colegas.
2. Quais os malefícios que a superproteção pode trazer para a criança e para o futuro adulto em que ela irá se tornar (se possível, dê exemplos)?
JL - Perda de autonomia, medo de enfrentar situações diferenciadas daquelas do cotidiano (ainda que corriqueiras), dificuldade de relacionar-se com outras pessoas (principalmente estranhos, em situações cotidianas, como ir ao banco, comércio, serviços...), falta de iniciativa, reclusão, distanciamento da realidade, isolamento em mundos alternativos (como o virtual, em computadores e videogames)... É fato, por exemplo, em países onde a alta tecnologia já se estabeleceu de forma quase onipresente, como o Japão, a existência de adolescentes que têm amigos no universo virtual e não conhecem e nem interagem com colegas de sala ou vizinhos. No Brasil, as crianças estão desaprendendo as brincadeiras de rua, tradicionais até algum tempo atrás, tendo dificuldades de estabelecer amizade com colegas que vivem na mesma rua e também se refugiando em computadores e games...
a) É verdade que a superproteção na infância pode resultar em adultos tiranos e despreparados para as frustrações? Por quê?
JL - Essa possibilidade é real, mas não é uma regra. A superproteção cria não apenas a insegurança em quem vive dentro dessa realidade, mas pode gerar também a sensação de que, para tudo o que acontecer em sua vida, sempre haverá alguém para lhe dar suporte, proteção, auxílio e que isso é necessariamente uma obrigatoriedade para as pessoas que vivem ao seu redor, ou seja, saciar seus desejos e obedecer a suas ordens. Daí a constatação já apresentada na mídia de que muitas dessas crianças e adolescentes são praticamente reis em suas casas... Essa situação pode revertê-los em adultos egocêntricos e tiranos...
b) Que atitudes (sintomas) da criança dentro de casa e na escola podem denotar que a criança está sofrendo os males de uma superproteção?
JL - Comportamento arredio, uso excessivo e sem controle pelos pais de computadores e videogames, indisposição para sair de casa, pouca ou nenhuma atividade externa, como prática de esportes e jogos com amigos, reduzido grupo de interação social, dificuldade para comunicar-se e expressar sentimentos para os pais... Todas essas ações ou atitudes configuram sintomas. Não necessariamente ocorrendo ao mesmo tempo, mas a detecção de algumas dessas ações em conjunto pode denotar que há excessos relacionados à superproteção.
3. Li em alguns artigos que o número de crianças superprotegidas ao longo dos anos tem aumentado. Em sua opinião, o que leva os pais a adotarem comportamentos superprotetores?
JL - Entre os principais fatores, sem qualquer sombra de dúvidas, o aumento da violência e a ênfase dada pelos meios de comunicação a fatos dessa natureza. Casos como aquele da menina Isabela Nardoni ou do jovem que matou a namorada em Santo André depois de mantê-la em cativeiro tiveram grande destaque na mídia e bombardearam a cabeça de pais e filhos durante semanas. São exemplos de como a violência burlou os limites da civilidade e atingiu o que poderíamos chamar de selvageria; e a atuação da imprensa, da mesma forma, demonstra como isso se tornou, de certo modo, um "espetáculo" (macabro, diga-se de passagem), em busca de mais audiência. Ação bastante irresponsável, por certo. Apresentar e disponibilizar, dando acesso à informação é responsabilidade da imprensa; agora, transformar esses fatos em "circo" para aumentar a visibilidade das emissoras, programas e jornalistas e, dessa forma, lucrar com a desgraça alheia é deplorável...
4. Li que pais de idade mais avançada, adotivos ou que tiveram um filho único ou prematuro estão no grupo de risco dos possíveis pais superprotetores. Você concorda? Por quê (explique os motivos que poderiam levar à superproteção, em cada caso)?
JL - As famílias estão mudando de cara. E também de tamanho. É cada vez maior o número de pais que decidem ter apenas um filho. E aqueles que não podem ter filhos e adotam crianças também, por questões jurídicas ou financeiras, acabam optando por um filho apenas. Isso ocasiona, certamente, uma apreensão ainda maior quanto à segurança desses filhos únicos. E, como repercussão, aumenta a vigilância, ocasionando maiores possibilidades de ocorrência da superproteção. Isso é fato.
5. Alguns pais acabam caindo na superproteção porque, ausentes (na maior parte do tempo, em virtude da vida profissional), buscam compensar essa ausência dando tudo para a criança quando estão em casa. Essa conduta é correta? Por quê?
JL - Não se pode substituir a presença por benefícios materiais em hipótese alguma. Há natural demanda entre os seres humanos por carinho, presença, pelo contato físico, emocional, cultural... É certo que todos precisamos também de conforto e aparato material para sobreviver, mas esses recursos são meios ou suportes para uma vida saudável. Entretanto, sem o suporte emocional dado pela presença humana, nenhum bem, por mais valioso que seja, consegue dar, a quem quer que seja, condições verdadeiras de se sentir bem, feliz, seguro... Se as pessoas trabalham, é preciso que, em suas vidas, reservem tempo para a família, ainda que reduzido pelas obrigações profissionais... E se o tempo é pouco, que seja vivido com qualidade, presença, carinho, apego...
a) Qual a importância dos limites na educação da criança? De que forma elas ajudam a criança a crescer e adquirir maturidade?
JL - Impor limites é de essencial importância porque nossas vidas – em todos os aspectos (emocional, físico, cultural, econômico, social, jurídico) – apresenta fronteiras que estipulam até onde podemos ir. Basta partir daquela que é premissa básica para a sobrevivência humana para entender o quanto isso é necessário, ou seja, a constatação de que nossos direitos terminam quando começam os dos demais seres humanos. Não podemos ultrapassar essa norma básica e, certamente, quando os pais dão liberdade excessiva, criam uma realidade aos olhos de seus filhos que não é condizente com o mundo que as cerca... Até quando esses pais irão alimentar entre seus filhos a ilusão de que eles estão acima da lei, dos costumes, das outras pessoas que vivem no mundo?
6. Outros pais acabam adotando o comportamento superprotetor como uma forma de proteger a criança de decepções e perigos. Mas qual a importância dos erros e das frustrações para o aprendizado?
JL - Erros e frustrações também são constantes de nossas existências e, certamente, nos ajudam a melhorar nossa trajetória, quando bem trabalhados por nós. Temos que mostrar às crianças e adolescentes que, ao errarem, inicia-se um novo ciclo em suas experiências, que prevê a compreensão do erro, a busca de respostas que permitam superar essa situação, a busca do acerto e a consecução de novas tentativas...
a) Como os pais podem compensar essa ausência de casa de forma saudável?
JL - Tornando o tempo disponível para o convívio o melhor possível. Dedicando sua atenção às crianças e aos adolescentes em seus períodos de folga. Demonstrando preocupação e presença mesmo quando estão a distância, entrando em contato por telefone, e-mail, MSN... Compartilhando não apenas suas preocupações, mas procurando demonstrar segurança, dialogando o máximo que for possível, dividindo não apenas aquilo que materialmente conseguem produzir, mas principalmente amando de forma profunda seus filhos...
7. O medo de perder o amor do filho atrelado à questão da ausência de casa é outro fator que pode levar a comportamentos superprotetores? Como os pais podem lidar com esse sentimento?
JL - Revendo prioridades, realizando um melhor agendamento de seus compromissos, dando espaço e importância para a família em suas vidas, valorizando a sua presença e entendendo-a como primordial para o crescimento sadio de seus filhos.
8. Li que o comportamento superprotetor tem, por outro lado, a cobrança excessiva de um bom desempenho e comportamento da criança por parte dos pais. Por que isso ocorre?
JL - Ocorre pelo fato de os pais pensarem serem o bom comportamento e desempenho na escola e demais atividades das crianças a contrapartida demonstrada por seus filhos quanto ao amor que pensam existir na ação superprotetora... Seria uma espécie de retorno esperado pelo fato de, ao agirem de modo superprotetor, demonstrarem o quanto amam seus filhos. Esquecem-se, com isso, que tudo o que os pais fazem deve prescindir da ideia de retorno, de contrapartida. O que os pais fazem, enquanto legítimo ato de amor, não deve demandar retorno como resposta dos filhos. Esse retorno deve vir naturalmente, pois, dessa forma, comprova-se que o amor oferecido tem real sentido e valor para os filhos...
9. É possível quebrar essa redoma de proteção? De que forma (dê exemplos de comportamentos superprotetores que devem ser evitados pelos pais)?
JL - Os pais devem proteger seus filhos, mas, ao mesmo tempo, prepará-los para o mundo, pois certamente irão voar algum dia em busca de seu espaço neste planeta. Isso prevê – visando evitar a superproteção – que ocorram a presença, o diálogo, a sinceridade, a compreensão e a explicitação do que existe no mundo, tanto no que se refere aos riscos quanto às possibilidades. Precisamos alertar quanto às drogas, por exemplo, mas não podemos fazer disso um argumento para isolar nossos filhos e torná-los reclusos. Falemos do assunto, expliquemos o que significam as drogas, alertemos quanto aos riscos e possibilidades e procuremos acompanhar o andamento de suas vidas para evitar contratempos. Isso não significa, no entanto, que iremos tolher suas vidas e experiências. Eles também têm que caminhar sobre os seus próprios pés e, contando com o que lhes dermos de formação, demonstrarem, por suas ações e iniciativas, que o que lhes legamos, por meio da educação e presença que tivemos em suas vidas, foi suficiente para que fizessem as escolhas corretas para suas existências.



Comentários
Postar um comentário