O saber em pílulas e medicamentos: sonhos e pesadelos


Notas altas. Rendimento acima da média. Pertencer à elite acadêmica da escola na qual estuda. Estar apto a disputar e vencer a corrida pelas melhores vagas nas universidades. Como no caso das competições internacionais que revelam os homens mais fortes, elegendo o mister universo, também entre estudantes do ensino médio nos Estados Unidos, conforme trazido à tona a partir da reportagem de Alan Schwarz para o The New York Times, estão sendo utilizadas drogas prescritas por médicos para melhorar a performance. 

A “bomba”, no caso, funciona com estimulante, dando aos usuários maior energia e permitindo-lhes que se concentrem mais nos estudos. Isso leva muitos destes estudantes a varar a noite estudando nas vésperas de provas e, dessa forma, “energizados” artificialmente, a ter resultados muito favoráveis nas avaliações as quais são submetidos. Entre os estudantes a constatação é a de que “é como se o remédio estudasse por você”. 

Não percebem, no entanto, que estes medicamentos vendidos apenas a partir de prescrição médica e indicados para pessoas que apresentam déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), para os quais tem um efeito calmante, podem e irão lhes causar problemas a partir de sua ingestão regular e fora deste quadro clínico. Consequências como taquicardia, depressão, privação de sono, mudanças rápidas de humor, exaustão e até mesmo psicose quando em abstinência, ou ainda, dependência destas drogas para estudar, já estão sendo anotadas entre os contragolpes possíveis. 

Nas escolas em que a competitividade é mais acirrada pelos melhores resultados, na busca pelas melhores notas, estima-se que entre 15 e 40% dos estudantes consumam estes medicamentos. Drogas como a Ritalina e o Focalin (metilfenidatos) ou o Adderall e o Vyvanse (anfetaminas), consideradas como substâncias controladas classe 2, equivalentes neste nivelamento à morfina e a cocaína, dependem de prescrição médica e, conforme atestado pelos especialistas, provocam dependência. 

Um adolescente, na ânsia de provar para si mesmo, colegas, pais e professores que é um dos melhores alunos de sua classe ou escola e que este lugar obtido no ranking não é fruto do acaso acaba muitas vezes se rendendo a drogas como estas e, sem saber, está sacrificando tudo o que conquistou até o momento, sua saúde e até sua condição naturalmente obtida de bom ou ótimo aluno. 

Pode-se pensar, enganosamente, a princípio, que estes medicamentos são como os aditivos colocados nos combustíveis que abastecem os automóveis do mundo inteiro. Não são e é preciso que se trabalhe nas escolas para que nenhum estudante faça uso destas pílulas de forma inadequada, prejudicando-se em seu desenvolvimento natural, sendo lesado, por exemplo, quanto às horas de sono tão indispensáveis para a sua recomposição e possibilidade de estar bem disposto e preparado para estudar e ter bons resultados. 

Nas escolas americanas o uso das chamadas “pílulas da boa-nota” está estimulando até mesmo o surgimento de um impensável “tráfico de drogas”, com outros estudantes vendendo unidades dos mencionados remédios por valores que vão de 5 a 20 dólares e, pior, tendo demanda crescente. Nos Estados Unidos o uso de medicamentos para TDAH teve aumento de 26% de 2007 até o presente ano de 2012 e já chega a mais de 21 milhões de prescrições anuais. 

O uso de Ritalina no Brasil igualmente explodiu nos últimos anos, onde o remédio é conhecido nas escolas como “droga da obediência” por sua estreita ligação com os casos de alunos hiperativos. No ano 2000, por exemplo, foram vendidas 70 mil caixas de Ritalina. Os registros para 2009 quanto à venda deste mesmo medicamento atingiram 1 milhão e 700 mil caixas. O Brasil já é o 2º maior consumidor de Ritalina do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. 

O uso concentra-se especialmente no combate à TDAH, mas os especialistas e estudiosos da área questionam se todo este medicamento é realmente necessário, se não há alternativas de tratamento que não exijam tal crescente demanda e, mesmo, se todos os casos diagnosticados como déficit de aprendizagem com hiperatividade podem ser assim confirmados. Na esteira destas discussões, no Brasil, as drogas das boas-notas ainda não ganharam campo. 

Ainda assim, além dos Estados Unidos, pesquisas da Universidade de Berkeley revelam que o consumo destes remédios aumentou 9 vezes nos últimos 10 anos também em países como a França, a Coréia do Sul, o Japão e a Suécia. O alto nível da educação nestas nações aliado à forte competição entre os alunos e posteriormente no mercado de trabalho pelas melhores posições de certo modo nos indica o quanto a busca por estas drogas se associa à intensidade trazida pela globalização. 

Estar apto a competir pelas melhores vagas por atingir as melhores notas parece não ter preço, ainda que isso tenha custos altos para a saúde física, mental e até mesmo social das pessoas. Drogas que aumentam o nível de dopamina no cérebro, afetando o sono, o apetite, causando dores de cabeça, nervosismo, dificuldade para se relacionar e ansiedade são vistas pelos alunos americanos de ensino médio como tábua de salvação para atingir o topo dos rankings e chegar nas melhores notas e oportunidades. 

Agradar a todos (pais, professores, examinadores) passou a ser a regra e, ao mesmo tempo, a chance real para muitos alunos chegarem lá, ou seja, literalmente, conseguir as vagas nas melhores universidades de seus estados ou países. O problema é que o consumo ocasional é rapidamente substituído pelo uso frequente, em especial durante ciclos de provas. Posteriormente, a própria dosagem dos medicamentos parece ser insuficiente, fazendo com que os consumidores apelem para novas versões, mais fortes, ou então pelo consumo de mais de uma pílula por vez. 

É preciso, neste sentido, repensar a forma como estão sendo conduzidos estes alunos quanto às perspectivas de futuro que alimentam. Isso passa, necessariamente, por abrandar as demandas aceleradas, vorazes e até mesmo impiedosas ligadas ao mundo globalizado e à inserção das escolas na dinâmica do mercado e do consumo. 

Outra importante medida a ser tomada passa pela responsabilidade cada vez maior dos médicos e terapeutas que prescrevem tais drogas. Nos Estados Unidos os próprios estudantes atestam que a partir de simples relatos feitos por eles mesmos os médicos se prontificam a receitar-lhes remédios para TDAH. É preciso ir mais a fundo. A análise médica tem que passar por exames e testagens que lhes permitam total confiabilidade ao prescrever tais medicamentos. 

Os pais, por sua vez, tem que acompanhar os filhos, incentivando-os a estudar de forma regular, preparando-se de forma adequada, conforme orientação de seus professores e de especialistas, evitando que passem horas a fio, de madrugada, sem dormir, tendo alimentação saudável, não utilizando medicamentos “milagrosos” e impróprios e, principalmente, estimulando-os a uma vida cultural que reforce a formação educacional. 

As escolas, espaço privilegiado de educação e cultura, por sua vez, ainda que integrada ao mundo que a cerca, enquanto instituição formadora, deve olhar para seus alunos e vê-los como seres humanos em crescimento, respeitando as individualidades, preparando para a vida (e para o mercado e a globalização), mas sem se ater a buscas desenfreadas por resultados que exijam de seus estudantes qualquer esforço que seja para eles sobrenatural. 


Por João Luís de Almeida Machado


Saiba mais sobre o assunto: 

Ritalina faz semana de estudos virar um dia http://noticias.r7.com/educacao/noticias/sob-efeito-da-droga-uma-semana-de-estudos-virou-um-dia-diz-medico-20090927.html 

Geração Ritalina http://revistatrip.uol.com.br/revista/203/reportagens/geracao-ritalina.html 

Ritalina, usos e abusos http://veja.abril.com.br/271004/p_068.html 

Anfetaminas http://www.brasilescola.com/drogas/anfetaminas.htm 

Chega ao Brasil o ice, uma versão turbinada de anfetamina usada pelos internautas http://veja.abril.com.br/041000/p_096.html

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