O novo "Show de Truman"


Filme produzido em 1998, dirigido por Peter Weir e protagonizado por Jim Carrey e Ed Harris, "O Show de Truman" foi um dos grandes sucessos daquele final de década. Descrevia a trajetória de um jovem que nasceu na televisão e que ali cresceu, num ambiente artificial, rodeado por atores, com câmeras por todos os lados, uma equipe de diretores e técnicos a orientar as ações e todo um aparato de marketing televisivo a transformar seu programa num grande sucesso ao mesmo tempo em que se vendiam produtos variados ao longo das diversas cenas mostradas ao grande público.

Truman (Jim Carrey em um de seus melhores papéis) era o único inocente de toda a trama televisiva. Havia sido levado para as telas ainda bebê e não desconfiava que tudo aquilo que girava ao seu redor, sendo ele o protagonista, era artificial, ou seja, que aquele universo não existia de fato e, sim, somente na ficção. Todos aqueles com quem coexistia eram pessoas contratadas para contracenar com ele, de sua esposa ao melhor amigo, dos colegas de trabalho aos transeuntes com os quais cruzava ao longo do caminho entre sua casa e o escritório, de seus pais a seus professores ou companheiros de escola, ninguém era de fato quem dizia ser ou agia de forma espontânea, ou seja, tudo era direcionado por alguém da equipe técnica.

Ironicamente a cidade cenário onde habitavam possuía ruas, estradas, negócios, escola, praia, pontes e, ao largo de tudo isso, no céu, uma lua onde a equipe técnica monitorava os movimentos de Truman e de todo o elenco por inúmeras telas. Christoff (Ed Harris), idealizador, realizador e diretor do programa, estava literalmente no céu, a organizar as andanças de seu rebento maior naquele mundo transmitido via satélite para lares em todos os estados americanos. Vejam como a brincadeira foi longe, do céu, o criador, chamado Christoff, tudo via e orientava, indo além do conceito de Big Brother de Orwell, como tive a oportunidade de destacar em texto sobre o filme.


O mote, no entanto, desta produção, ultrapassou o seu tempo e chegou a nós para que possamos entender o quanto somos monitorados hoje, tendo em vista as tecnologias com as quais lidamos em nosso dia a dia, de nossos smartphones aos computadores, tudo ligado via web, com a constante produção de dados por cada um de nós.

Todos, de certo modo, nos tornamos "Trumans" e o show continua, com Christoffs anônimos a perceber nossos movimentos e, em certos momentos, direcionar até mesmo nossas ações. Parece demais? Não é, veja o que fazemos no exemplo a seguir e perceba o quanto somos acompanhados e como somos "compreendidos" pelos sistema:

- Compre um produto pela internet, por exemplo, um liquidificador ou uma batedeira. Depois disso, tendo indicado seu interesse por produtos desta natureza, cheque sua caixa de correios e veja que começará a receber mensagens com ofertas de itens similares;

- Inscreva-se em um evento. Você cedeu seus dados, do seu nome ao número de documentos, de seu endereço ao seu telefone (fixo e/ou móvel) e, ao mesmo tempo, deixou claro que tipo de interesse pessoal ou profissional norteia suas ações.

- Participe de um curso online. O que você irá estudar? Mecânica, filosofia, ecossistemas ou artes plásticas. Traçando paralelos com dados de seu trabalho é possível perceber se este curso no qual se matriculou se refere a seus propósitos profissionais ou a seus interesses pessoais, como os hobbies, por exemplo.

- Entre em concursos por vagas de emprego pela internet. Quais são os empregos que busca? Aonde quer trabalhar? Que pretensão salarial tem? Já está empregado e busca outra oportunidade? Enviou seu currículo?



- Pelos sistemas enviamos documentos oficiais, como declarações de renda para o governo.

- Assista um filme online ou quantos quiser. Seus padrões ou interesses estarão registrados no provedor destas produções.

- Compre livros para download em seu tablet ou entrega em seu endereço e diga ao mundo que temas estão em sua cabeça.

Isso tudo sem contar tantas outras ações virtuais, pelos próprios telefones celulares ou fixos, por exemplo, através dos quais se registram nossos contatos ou ainda as redes sociais, como o Facebook, blogs, Twitter, Foursquare e tantas outras ferramentas, nas quais espontaneamente dizemos onde estamos, o que estamos fazendo, com quem estamos reunidos...

Estamos ou não vivendo o novo "Show de Truman"? E para onde vamos nesta história? O que fazemos? O que é preciso fazer se nem ao menos nos damos conta de tudo isso? E se percebemos e não reagimos, qual a mensagem que estamos passando adiante? Como será para aqueles que vierem depois, nas próximas gerações, será o monitoramento total? Esse olhar sobre nossas vidas interfere de que formas em cada passo que damos? O quanto isso é perigoso ou prejudicial para cada um de nós? 

Talvez Julian Assange e seu WikiLeaks nos tragam apenas a ponta do iceberg quanto a forma como o mundo está sendo conduzido hoje em dia. Governos, corporações e outros interessados estão vendo você agora, neste instante e podem definir seu rumo, sem que você perceba. Para onde vão as liberdades individuais? Neste presente e futuro em que vivemos/viveremos poderemos ser quem gostaríamos de ser ou o monitoramento e a indicação de passos a serem dados nos descaracterizarão? 

Ao percebermos o estúdio em que vivemos poderemos sair pela porta dos fundos como fez Truman?



Por João Luís de Almeida Machado

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