AINDA ESTOU AQUI (Brasil, 2024)
Que alegria ir ao cinema e ver a sala de projeção lotada, sem nenhuma cadeira vaga, principalmente por se tratar de um filme brasileiro, algo que, pessoalmente, não me recordo de ter visto antes.
Este último e o primeiro citados contando com as presenças ilustres e de qualidade ímpar de Fernanda Torres e da icônica e imortal Fernanda Montenegro, ambas reaparecendo em grandes atuações em "Ainda Estou Aqui". Que ainda conta com Selton Mello, marcante na tela, no papel do deputado e engenheiro Rubens Paiva, o pivô de toda essa história digna de ser filmada.
Filme que retrata a obra de Marcelo Rubens Paiva, que entre outros livros e tantos artigos e pensatas publicados no nosso país, já havia nos brindado com "Feliz Ano Velho", memorável best-seller dos anos 1980 que também virou filme.
O livro/filme atual, no entanto, nos colocam na pele de Eunice Paiva (Fernanda Torres/Fernanda Montenegro), esposa de Rubens Paiva, mãe de 5 filhos (entre os quais Marcelo, autor do livro), dona de casa, moradora do Rio de Janeiro, num contexto ímpar e terrível da história brasileira, o regime de exceção, a ditadura militar que vigorou no país entre 1964 e 1984.
Rubens Paiva (Selton Mello) é um ex-deputado que, cassado teve que sair do país após o golpe militar de 1964 e que, tendo retornado, não estava mais atuando na política, sendo sócio de uma construtora, levando uma vida mais família, com projetos de construir uma casa em terreno recém adquirido, tendo obras para realizar juntamente a seu sócio na construtora.
Mas, em meio a uma rotina familiar marcada por idas a praia, almoços com os filhos e a esposa, música e livros, amigos convidados para degustar suflês e outras delícias, com muita interação de Rubens e Eunice com a prole, o exército está nas ruas, a caça de 'comunistas', 'terroristas' e de qualquer um que contrarie o silêncio imposto pelo AI-5, o temido Ato Institucional número 5 que, estabelecido em 1967, limitou os direitos civis e deu carta branca aos oficiais e soldados a serviço da "revolução" para prender, torturar e, mesmo, matar seus 'inimigos'.
E a TV, ao fundo anuncia novo sequestro de embaixador, após troca de presos políticos pela libertação de outro diplomata estrangeiro, com isso, o cerco apertando ainda mais a perseguição a qualquer pessoa suspeita de participação e ajuda aos rebeldes que ousavam trair a pátria.
É nesse ínterim, na virada de 1970 para 1971 que a casa de Rubens Paiva recebe a visita de agentes do governo que o levam para dar um depoimento e ficam no local monitorando a esposa Eunice e as crianças.
Paiva vai para nunca mais voltar. Eunice e uma das filhas são também levadas para depoimento. A menina, ainda adolescente, passa um dia no quartel, encapuzada, ouvindo gritos, sendo ameaçada, tendo que falar sobre algo que não sabe. A mãe fica vários dias ali, presa, sem direito a advogado, sem saber aonde está ou o que está acontecendo com a filha, o marido ou o que se passa em sua casa, onde ficou o restante da família...
A história de Eunice Paiva está apenas começando, em meio a todo esse inferno súbito, nos porões da ditadura e irá se prolongar por mais e mais tempo.
Uma narrativa real e verdadeira sobre o que acontece com a família de um desaparecido político no Brasil, num drama envolvente, que comove em meio a brutalidade invisível, aquela do açoite psicológico, da ausência de alguém amado sem que se saiba se está apenas desaparecido ou se foi morto.
Premiado em festivais internacionais antes de seu lançamento no Brasil, com atuações de ponta de seu elenco principal, com especial destaque para Fernanda Torres, direção segura e artesanal de Salles, bela trilha sonora com clássicos da MPB, roteiro impecável (premiado no festival de Veneza), "Ainda estou aqui" é uma história de coragem, determinação e dignidade que precisa ser vista mesmo por milhares ou milhões de brasileiros, para que aqueles dias sombrios nunca mais se repitam. (JLAM)
Confira o trailer abaixo:


Comentários
Postar um comentário